amsterdam, literatura de viagens

UM VÍCIO VINDO DA HOLANDA

Uma doce história de abstinência.

Um amigo acabara de voltar da Holanda e trouxera um presente para ele. Algo tão bom que ele ficou viciado de primeira. Antes que terminasse a dose que o amigo trouxera, já não podia mais viver sem aquilo. Escondeu da mulher. Ela nunca poderia saber. Mas conseguiu convencê-la a ir pra Holanda com ele. Precisava comprar mais. O problema foi na hora de decidir a cidade:

– Gouda, vamos para Gouda! – disse Artur.

– O que? Gouda? O que tem lá?

– Bem, tem queijo gouda, tem… é…

– Ih, essa história tá estranha, Artur. Primeiro você me aparece do nada com essa ideia de viajar pra Holanda. Agora quer ir pra Gouda sem nem saber o que tem lá. E você é intolerante à lactose, esqueceu?

– Bem, é que… – Artur não conseguia achar uma desculpa, se desconcentrava, só pensava no que precisava comprar lá.

– Olha, amor, eu topo. Mas só se formos pra Amsterdam. Minha mãe já esteve lá e disse que é lindo. Quero visitar os campos de tulipa de Keukenhof.

Jardim de Tulipas – Amsterdam – Ellen26 – pixabay

Sem saber como demover a esposa daquela ideia sem ter que explicar a ela o porquê de ir a Gouda, Artur concordou. Quando estivesse na Holanda, certamente seria mais fácil dar um jeito de achar e comprar o que queria.

Viajaram. Ela pensava nos campos de tulipa, nos canais, nos moinhos. Ele só pensava em seu novo vício. Quando chegaram, ela sugeriu um passeio de barco pelos canais; conheceriam a cidade de outro ângulo, veriam as casas-barco, admirariam a arquitetura… Ele aceitou; podia ser que avistasse algum lugar que vendia o que ele procurava. Já estava ficando desesperado. Precisava daquilo. Mas não podia falar nada para a mulher. Isso não. Ela podia acabar viciada também. Enquanto ele divagava, o barco passou pelo museu Nemo, pelo navio da Cia. das Índias Orientais, pelo restaurante chinês… e nada… o passeio chegou ao fim sem ele ter encontrado ainda o que procurava.

Já estava anoitecendo e a esposa de Artur estava curiosa para conhecer o Red Light District. Será que lá ele encontraria o que procurava? Andava pela ruas com uma mão segurando a da esposa e outra na boca, roendo as unhas. Passaram por um africano que sussurrou baixo encarando-os: “Coke?” A esposa apertou a mão de Artur e também o passo. Logo estavam na rua das cabines vermelhas. As garotas nas vitrines chamavam-nos, tentavam atrair a atenção do casal. A mulher olhava. Mas Artur ignorava, virando a cabeça de um lado ao outro, como quem procura algo. Foram parar numa rua repleta de lanchonetes, pizzas, batatas fritas com maionese, waffles gigantes cobertos de frutas e chocolate. Artur começou a transpirar e tremer, achando que estava próximo ao que procurava. Sim, podia ser que ali por perto… Mas a esposa pensou que ele estivesse passando mal e acabaram voltando para o hotel.

Waffles de Amsterdam – by Maguiss – Pixabay

No dia seguinte, foram aos tais campos de tulipa. Empolgada, a esposa ia para lá e para cá tirando mil e uma fotos. Artur aproveitou a distração dela e mandou uma mensagem para o amigo brasileiro perguntando se em Amsterdam ele conseguiria encontrar o mesmo que o amigo trouxera para ele de Gouda. Confessou ao amigo: estava viciado. Para a sorte de Artur, rapidamente, o amigo respondeu dizendo que sim e dando-lhe o endereço de onde encontrar os melhores de Amsterdam. Nesse momento a mulher o surpreendeu:

– Com quem você estava falando?

– Nada, amor, com ninguém…

– Sei, sei. Você anda muito estranho, Artur.

– Não era nada, amor. Só estava olhando os e-mails.

– A gente não veio para cá ficar olhando e-mails – retrucou a esposa – Eu quero mesmo é esquecer de tudo um pouco, amor. Aliás, que tal irmos a um coffeeshop esta noite? Eu sempre quis conhecer um.

– Hm, está bem – ele parecia empolgado – e que tal irmos à feira amanhã? Dizem que tem uma feira aqui que tem de tudo, o Albert Cuypmarkt.

Dizem? Quem “dizem”? Você nunca gostou de feira. Deve estar fazendo isso só pra me agradar. Mas por que? Você tá muito estranho, Artur. Estou de olho em você.

Mas naquela noite a esposa esteve de olho em muitas coisas; na diversidade de coffeeshops que havia na cidade; na organização dos lugares, específicos para cada coisa que se quisesse consumir; na serenidade dos frequentadores; nos aromas diversos que pairavam no ambiente; nas cores, mobiliários e vídeos psicodélicos exibidos por ali; nas bebidas e comidas do cardápio… Enquanto isso, Artur viajava e pensava em outra forma de acabar com a larica.

Coffeeshop em Amsterdam – balcão de vendas – Oulad87 – Wikimedia(CC4.0)

– Vamos embora? – ele propôs – ainda temos que ir à feira amanhã.

– Você quer mesmo ir à feira, amor?

– Quero. Nós não fomos à Gouda, mas à feira nós vamos.

A esposa deu de ombros. Ela adorava uma boa feira. Se ele queria agradá-la, melhor. Devia estar preparando alguma surpresa. Mal sabia ela que Artur pretendia continuar mantendo tudo às escondidas.

No dia seguinte, Artur acordou cedo. Estava animado como não esteve durante toda a viagem. Quando a mulher despertou, ele já tinha tomado banho, feito a barba, se perfumado e estava esvaziando a mochila.

– Para que uma mochila vazia? – foi a primeira coisa que ela disse.

– Ah, nunca se sabe. Vai que você quer comprar umas coisinhas.

E ela quis muitas coisinhas quando chegou à Albert Cuypmarkt. Eram roupas, eletrônicos, produtos de higiene e beleza, vegetais frescos, queijos, acessórios para casa, bolsas, malas… “E o mala do marido, onde estaria?

Albert Cuypmarkt – feira livre em Amsterdam – Alf van Beem – Wikimedia(CC1.0)

Artur aproveitara novamente a distração da mulher e disparara na frente. Desviando dos inúmeros turistas e locais, ele andava rápido pela rua da feira, olhando de um lado para o outro. Apertava as mãos, suava frio. Será que ali encontraria o que tanto procurava? Aquilo que viajara tantos km para encontrar? O amigo dissera na mensagem que a origem era de Gouda, mas que já haviam se espalhado pela Holanda e que o melhor de Amsterdam ele encontraria ali na feira, mas onde?

Foi quando ele sentiu o cheiro inconfundível. Aproximou-se. Olhou em volta conferindo se a esposa não se aproximava também. Seus olhos saltavam das órbitas, suas mãos tremiam. Com voz também trêmula, pediu ao vendedor todo seu estoque, queria encher a mochila. E quase consumido pelo desejo, ainda pediu um grande para consumir na hora.

A mulher o surpreendeu com a mão e a boca na botija. Com a cara toda lambuzada de caramelo, Artur tinha um grande doce numa mão e com a outra enchia a mochila com pacotes daquele mesmo doce em versão menor.

– O que é isso, Artur?

– Eu posso explicar.

– Eu repito: o que é isso, Artur?

– São stroopwafels, eu confesso. Mas eu ia te contar, eu juro. Eu só tinha medo que…

– Stroop-o-quê?

– É que eu tinha medo que você ficasse viciada, como eu fiquei, amor. Aí depois você ia dizer que estava engordando por culpa minha.

– Você está me chamando de gorda? Olha aqui, Artur…

– Não, amor, você tá linda. Come um stroopwafel, come.

Foi uma explosão de sabores. A crocância das duas metades de waffle, finas como duas folhas; a doçura e cremosidade do caramelo e o contraste da canela. O nervosismo da mulher se dissipou na primeira mordida.

– Então, tudo isso aí na mochila era uma surpresa pra mim, meu lindo?

– Bem, aqui tem muitas calorias, quer dizer, muitos stroopwafels. Você não vai querer comer tudo sozinha. E afinal, como dizem, a felicidade só é completa quando é compartilhada, não é mesmo?!

Stroopwafel – Ernesto Andrade – Flickr

 

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

 

campos de tulipa de Keukenhof

As tulipas são algumas das paixões holandesas desde o século XVII. Só que os famosos campos de tulipa de Amsterdam não ficam em Amsterdam, mas em Lisse (a uns 34 km dali). Dá para ir até lá (em uns 40 min) de carro ou de transporte público (pegue o trem para o aeroporto Schipol, dali pegue o ônibus 858, na Arrivals 4). Outro ponto importante a considerar, antes de ir para Lisse, é que o parque Keukenhof (o maior parque de flores do mundo) só está aberto na Primavera, variando a data de ano para ano, geralmente entre março e maio (em 2016, por exemplo, a data é de 24/3 a 16/5); não adianta querer ver os campos de tulipas no Inverno ou no Verão (já que a floração é natural e só ocorre na estação apropriada). O número de flores ainda varia durante a temporada, sendo que a melhor época para visitas costuma ser a segunda quinzena de abril.

passeio de barco pelos canais/o barco passou pelo museu Nemo, pelo navio da Cia das Índias Orientais, pelo restaurante chinês…

Passear pelas ruas de Amsterdam é uma experiência inigualável. Mas o passeio de barco por seus canais pode proporcionar um ângulo diferente e mais panorâmico da cidade. Além de uma linda vista dos arcos dos canais perfilados e da arquitetura amsterdanesa, ainda é possível conhecer várias outras atrações, como cita o texto: o Nemo é um museu de ciência e tecnologia, alojado em um inusitado edifício em forma de navio, assinado por Renzo Piano; quase ao seu lado, está uma réplica do próprio navio Amsterdam, como foi apelidada, em 1748, a embarcação que deveria servir ao comércio com a Companhia das Índias Orientais e que acabou afundando no Canal da Mancha; ainda próximo dali, avista-se o Sea Palace, o primeiro restaurante flutuante da Europa, especializado em comida cantonesa, uma reprodução do famoso Jumbo Kingdom de Hong Kong.

casas-barco

Amsterdam tem de centenas a milhares de casas-barco instaladas em seus canais (o número preciso de casas-flutuantes varia conforme a fonte). São residências com os mesmos cômodos e utilitários das casas convencionais, mas com algumas adaptações necessárias e o grande diferencial de ter água em vez de grama em seu quintal. Pode parecer divertido, porém, morar em uma dessas não é para qualquer um: os preços chegam a superar os de casas tradicionais e a manutenção é trabalhosa. Além disso, não se pode mais colocar novas casas-barco nos canais de Amsterdam. Mas se você quiser experimentar a experiência por alguns dias, pode considerar alugar uma quando for visitar a cidade. Sites como booking.com e airbnb.com.br oferecem essa opção entre suas alternativas de hospedagem.

Red Light District

É um dos bairros mais polêmicos entre os turistas, mas na cidade, é encarado com bastante naturalidade. Fato é que, na Holanda, a prostituição é legalizada. E concentram-se nesse bairro muitas garotas de programa, em quartinhos com janelas enormes, verdadeiras vitrines, a partir das quais elas tentam chamar a atenção dos passantes. Mas passa por ali todo tipo de gente, de moradores, senhoras e famílias a verdadeiros clientes em potencial. O policiamento é ostensivo, garantindo a segurança de todos e a não tomada de fotos. É proibido fotografar as meninas. Ademais da curiosidade, o bairro é muito bonito, fazendo valer a visita.

Coke?

Como em qualquer grande metrópole, em Amsterdam também existe o comércio ilegal de drogas. Apesar da liberação do comércio de alguns tipos de drogas, de forma regularizada e fiscalizada, na cidade, continuam existindo traficantes nas ruas oferecendo outros tipos de psicotrópicos e alucinógenos sem nenhuma regularização. Infelizmente, muitos imigrantes, principalmente africanos, ainda podem ser vistos personificando situações como essas. O policiamento ostensivo, porém, continua combatendo tais práticas e mantendo a sensação de segurança sentida por todos os moradores e turistas.

pizzas, batatas fritas com maionese, waffles gigantes cobertos de frutas e chocolate

Os próprios holandeses admitem que falar em uma culinária típica holandesa pode parecer uma grande bobagem. É claro que há algumas delícias tradicionais para se comer na cidade, mas daí a dizer que são comidas típicas holandesas há uma grande distância. Por exemplo, a batata frita com maionese é um clássico das ruas de Amsterdam: um cone de papel cheio de batatas fritas com um punhado de maionese por cima (ou outro molho à escolha); não dá pra dizer que isso seja tipicamente holandês. Outra opção muito vista nas ruas da cidade são os waffles (belgas), mas com montes de coberturas, de frutas e chocolate. A torta de maçã, a sopa de ervilha e os laticínios em geral (queijos, iogurtes, etc.) também fazem sucesso por lá. (experiência pessoal com infos complementares do ducsamsterdam.net)

coffeeshop/organização dos lugares, específicos para cada coisa que se quisesse consumir

Coffeeshop é o nome dado, na Holanda, ao estabelecimento que comercializa produtos relacionados a cannabis, como cigarros de maconha, haxixe e outros similares. Normalmente, pode-se comprar e fumar no próprio local. A maioria oferece também bebidas não-alcóolicas e lanches para a hora da larica. Em alguns casos, é preciso consumir para sentar e fumar no local. Os ambientes costumam ser descolados, com pinturas psicodélicas, vídeos e músicas inspiracionais. Mas tem um ponto importante: não é permitido fumar cigarros de tabaco dentro dos coffeeshops nem consumir bebidas alcoólicas ou outras drogas. Como o comércio é regularizado, em Amsterdam, há locais específicos para venda e consumo de cada coisa: sejam bares, tabacarias, coffeeshops ou magicshops, tentando assim garantir maior consciência e segurança dos usuários.

Albert Cuypmarkt

A feira da Albert Cuypmarkt acontece há mais de 100 anos, de segunda a sábado, no bairro De Pijp. É a maior e mais tradicional feira a céu aberto de Amsterdam. Não espere grandes marcas, mas pequenos preços e muita variedade de produtos. Delícias holandesas, como queijos e doces, também podem ser encontradas por lá. O bairro Pijp fica próximo ao Centro, na área de Oud-Zuid. É um bairro pouco frequentado por turistas, mas um dos maiores points da boemia da cidade.

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