punta del diablo uruguai, literatura de viagens

TCHUIM, TCHUIM, TCHUN CLAIN NO URUGUAI

As voltas e surpresas da vida e o litoral uruguaio.

Kika e o amigo tinham saído de Florianópolis às 10h, já estavam dirigindo a umas seis horas e ainda não haviam chegado a Porto Alegre. Ele comentou:

– Acho que pegamos alguma estrada errada. Daqui a pouco estamos no Uruguai e nem passamos por Porto Alegre ainda.

Assim surgiu a ideia de ir de carro até o país vizinho nas próximas férias.

Quando Kika comentou seu plano com a galera de Floripa, dez amigos ao todo ficaram interessados em ir conhecer o país dos hermanos sulistas.

No dia seguinte, dois entre os dez nem lembravam mais da ideia. Mas os outros oito ainda estavam empolgados. E começaram a planejar a viagem: iriam em dois carros. Pra isso, certamente precisariam da tal carta-verde, lembrou um deles.

– Será que tem problema o meu carro estar no nome da empresa do meu pai?

Quando o amigo explicou que, nesse caso, ele teria que ir ao Consulado e fazer um procedimento um pouco mais burocrático, o outro acabou desistindo da ideia da viagem. Não estava a fim de complicações.

Mas o plano dos sete restantes continuou. Começaram a pesquisar as opções de hospedagem e seus preços. Kika e Nat sugeriram juntas:

– E se levássemos barracas… – disse Nat.

– E ficássemos em campings? – completou Kika.

Um casal desistiu da viagem no mesmo momento.

Restavam cinco que ainda queriam fazer a trip. Mas cinco pessoas é muita gente para fazer uma viagem tão longa em um carro só. E viajar em dois carros com apenas cinco pessoas (duas em um auto e três em outro) acabava ficando mais caro. Com isso, mais uma desistência.

E viajaram apenas Kika, Nat, Bia e Alice.
Enquanto revezavam o volante do Fiat Uno 1.0, comentavam:

– Engraçado. A vida dá voltas. Começamos com dez interessados e no final das contas só viemos nós quatro. – começou Alice.

– A vida dá voltas? A gente é que dá voltas. – respondeu Bia feliz – Onde é que estamos, Nat?

– Quase em Pelotas. Vamos dormir lá hoje e amanhã seguimos. – respondeu Nat, a copilota oficial.

– Alice? A-a-atchim, atchi, atchi, atchi, atchi, atchi, atchi – Kika espirrou sete vezes antes de continuar – Alice! … Ela já dormiu de novo?

– Dormiu, sim, ‘anham’ – respondeu Bia, se divertindo com as peculiaridades das amigas.

E com Alice ainda dormindo e Kika espirrando, chegaram a Pelotas/RS lá pelas 18h, após mais de 700 km rodados.

No dia seguinte, voltaram cedo à estrada. Pouco antes do Chuí, viram uns grandes silos grafitados com traços bem familiares e fizeram uma pausa para fotografar.

Bia desceu do carro feliz e saltitante, já dizendo:

– São desenhos do Driin e do Paulinho Gouvêa.

Graffittis de Driin e Paulo Gouvêa – perto do Uruguai – Estante de Viagens

Alice acordou na hora. Desceu do carro bocejando.
Nat já tirava fotos do local. E, pragmática como era, foi a primeira a lembrá-las de seguir viagem para chegarem cedo ao destino.

Pararam ainda nos freeshops do Chuí para comprar um adaptador de tomada. Mas descobriram que não iriam precisar e saíram logo daquela confusão.

Chegaram à fronteira Brasil/Uruguai.
Uma placa na estrada dizia: Republica Oriental del Uruguay.

Mais à frente, havia um prédio bem largo.
Mas não havia nenhum guarda pedindo pra parar…
Nenhuma barreira…
Uma placa explicativa talvez?
Viram um estacionamento próximo ao grande prédio e encostaram pra verificar. Lá dentro, uma fila de turistas e um policial conferindo os documentos e as cartas-verdes e dando-lhes um papel carimbado.
E se tivessem passado direto por ali?
Não saberiam…

Após a fronteira, a primeira parada de Kika, Nat, Bia e Alice foi no Forte de Santa Teresa, a menos de 50 km dali.

– Já notaram que o céu aqui é maior? – reparou Bia sorridente. – Já estou adorando tudo por aqui.

– Hmm.. eu tinha imaginado meio diferente – disse Nat. – Será que não é melhor seguirmos para Punta del Diablo logo?

Todas concordaram.
Voltaram ao carro e em menos de meia hora chegaram ao acesso do vilarejo.

Estacionaram em frente a um mercado que tinha na porta uma placa de Wi-Fi livre. Aproveitaram a tecnologia para comunicar a chegada aos familiares e postar notícias nas redes sociais. E seguiram dali, a pé, pela avenida que ia dar na praia.

Eram 12h. O sol estava a pino. As ruas de terra vermelha começavam a colorir os chinelos e sapatilhas das quatro amigas. A areia e a maresia podiam ser sentidas e vistas cobrindo, pelo caminho, as casas simples de alvenaria com extensões de madeira. O clima de vilarejo pesqueiro, com o visual dos barcos na praia e jeito provinciano, já era bem conhecido pelas amigas, moradoras da Ilha de Santa Catarina (que, tendo sido colonizada por açorianos, ainda guardava algumas semelhanças com aquele local). Mas ali em Punta del Diablo, aquela essência provinciana parecia ganhar um tom mais irreverente e despreocupado, como que advindo do próprio acento castelhano.

Tudo isso pensava Nat enquanto fotografava uma parede com um graffitti de um diabo lendo um livro, deitado em uma rede. Sobre o graffitti, a inscrição ‘El Diablo Lector’.

El Diablo Lector em Punta Del Diablo, Uruguai – Estante de Viagens

– Será que isso é uma livraria? – perguntou Nat.

– Livraria? Eu quero é saber de um restaurante. To com fome. E a-a-atchi, atchi… – reclamou Kika antes da crise de espirros.

Avistaram, então, uma simpática pizzaria com um avarandado de madeira e telhas cobertas de palha, com mesinhas bem protegidas do sol. E se instalaram por ali, já pedindo os cardápios, enquanto conversavam sobre coincidências da vida. De repente, Bia começou a rir mais alto que o normal e gritou:

Vocês não vão acreditar… Alice, olha pra trás.

Sonolenta, Alice demorou um pouco a entender. Mas logo deu um pulo da cadeira e saiu correndo para encontrar os conhecidos que Bia avistara. Minutos depois, Alice voltava à mesa das amigas para apresentar os três rapazes: Beto, Zé e Pedro.

Os três eram músicos e também moravam em Florianópolis. Apesar de serem colegas de Alice e de saberem dos planos de viagens uns dos outros mais ou menos na mesma época, não combinaram nada e o encontro ali em Punta del Diablo foi puramente ocasional.

Aliás, os rapazes já estavam há três dias no vilarejo. Curtiam a praia durante o dia, jogavam futebol de areia com os hermanos, desfrutavam da liberdade local e, à noite, sempre tocavam em algum lugar diferente, garantindo os recursos da viagem.

–Vamos tocar no Restaurante Don Quijote hoje. Vocês não querem assistir? – convidou Beto sorrindo, sempre solícito.

– Talvez elas já tenham planos, Beto. Já pensou nisso? – resmungou Pedro, que mantinha-se sério até o momento.

– Na verdade, não temos planos definidos. – respondeu Bia, simpática e sempre sorridente.

Estávamos aqui discutindo exatamente o que faríamos hoje. Se iríamos logo para La Pedrera, que fica só a uma hora e meia daqui, ou se ficaríamos por aqui mesmo. Ainda nem paramos pra dar uma olhada nos campings e perguntar se há vagas. – completou Nat, sempre com ar metódico.

– No camping que estamos, ainda há vagas. Vocês podem ficar lá hoje, se quiserem, claro, e aproveitar pra nos assistir – respondeu Zé – E amanhã, podemos ir todos juntos para La Pedrera e, quem sabe até, alugar uma casa por lá. Afinal, entre sete pessoas, o rateio da diária vai dar quase o preço do camping. – completou Zé, revelando também seu lado sistemático – O que acham?

– Eu ace-a-a… atchim, atchim, aceito… – topou Kika.

– Eu acho lindo – falou Bia sorrindo, já olhando pra Alice, que bocejava.

– Aaaahhhh… vou poder dormir em uma cama? Acho ótima ideia essa da casa. – completou Alice.

Nat levantou os ombros, com um sorriso, demonstrando sua aprovação, sem dizer palavra.

Beto manteve o sorriso largo no rosto, encantado por ter originado a ideia.

– Se todos concordam, um brinde – propôs Zé.

Nesse momento, Pedro, ainda sério, resolveu comentar:

–Vocês já repararam que parecem os anões da Branca de Neve? Aquela ali é, sem dúvida, a Atchim – disse, apontando pra Kika. – A Alice, nós já conhecemos, é a Soneca. A outra ali é a Feliz – falou Pedro sobre Bia. – O Beto é o Dengoso, claro. Só ‘to em dúvida entre o Mestre e o Dunga. Acho que o Zé e essa outra aqui revezam os papéis – completou Pedro, referindo-se à Nat.

Todos caíram na gargalhada. Mas Nat replicou:

– Você esqueceu de um, quer dizer, esqueceu do Zangado, você mesmo, no caso.

Os sete riram ainda mais. Brindaram, comeram e conversaram sobre músicas, livros, filosofia, relacionamentos, viagens… Tratava-se de um encontro genuíno proporcionado pelas estradas da vida. E a noite veio comprovar isso.

No avarandado do restaurante Don Quijote, Beto Dengoso com seu violino, Mestre Zé com seu violão e Pedro Zangado na bateria, tocavam um chorinho elegante e ritmado. Encantadas com a cena e com os sons, as amigas comentavam:

– É, realmente, a vida dá voltas, não é Atchim? – falou Bia, sempre feliz, chamando a atenção de Kika.

– E a cada volta, traz uma nova surpresa-a-a, atchim, atchi, atchi… – ressaltou Kika.

Alice sorriu em meio a um bocejo. E Nat, fazendo as vezes de Dunga, só pode completar com a única música que lembrava no momento:

– Tchuim, tchuim, tchun, clain…
Tchuim, tchuim, tchun, clain…

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

amigos na praia – Kimson Doan – unsplash

carta-verde

Trata-se do seguro obrigatório para veículos que ingressam em países do Mercosul. Portanto, se está planejando uma viagem de carro ou moto será necessário contratá-lo. O preço varia conforme a seguradora e de acordo com a quantidade de dias de permanência no país visitado. A contratação e o pagamento devem ser feitos antes de viajar (uma semana antes é uma boa dica). No Brasil, algumas seguradoras que oferecem esse serviço são: BBMapfre, HDI Seguros, Liberty, Marítima, Porto Seguro e SulAmérica.

Será que tem problema o meu carro estar no nome da empresa do meu pai?

Caso o veículo em que será feita a viagem seja de empresa, emprestado, financiado por leasing, consórcio ou CDC, costuma ser necessária uma Autorização para Tráfego do Veículo fora do Território Nacional (autenticada em cartório e legalizada no Ministério das Relações Exteriores – MRE/Itamaraty – ou no consulado do país a ser visitado). 

São desenhos do Driin e do Paulinho Gouvêa

Referência aos artistas plásticos, Pedro Teixeira – mais conhecido como Driin – e Paulo Gouvêa. Driin é um tatuador e artista urbano de Florianópolis, com exposições na Alemanha, entre outros (https://www.flickr.com/photos/driin). Paulo Gouvêa é uma artista multimídia paulista, apaixonado pela arte urbana, com trabalhos em tela, murais e animações, além de exposições em várias partes do mundo (http://www.paulogovea.com). 

freeshops do Chuí

O Chuí é a cidade mais ao sul do Brasil (já ouviu aquela expressão ‘do Oiapoque ao Chuí’?). Logo, a cidade gaúcha faz fronteira direta com o Uruguai. E aí existem diversos duty free e freeshops, além de supermercados e lojas comuns. Alguns consideram o melhor local da rota (de carro) para comprar bebidas e outros mantimentos. Presencialmente, porém, a experiência pode ser um pouco conturbada, devido à quantidade de pessoas e turistas no local, causando certo tumulto, como é referido no texto. 

adaptador de tomada/descobriram que não iriam precisar

A tomada mais comum no Uruguai é a de três furos redondos alinhados (diferente da brasileira nova). Nesse caso, se você tiver uma tomada na modelagem antiga ou um adaptador simples para tomadas de dois pontos, ainda consegue usar a tomada de três furos uruguaia sem problemas. Mas há também no Uruguai algumas tomadas com três barras (formando quase um rostinho) e aí seria realmente necessário ter um adaptador. Em todo caso, um adaptador universal é sempre um item essencial na bagagem de viagens internacionais, principalmente se você não for ficar em hotéis, como é o caso do texto. 

não havia nenhum guarda pedindo pra parar…

A frase refere-se a uma experiência pessoal em uma ocasião específica. Pode-se tratar de um fato isolado, mas no momento relatado realmente não havia guardas na fronteira solicitando que os carros parassem. O que não quer dizer que nunca haja guardas. E de qualquer forma, parar e realizar os procedimentos de imigração é indispensável. Afinal, sempre há a possibilidade de ser parado posteriormente pela polícia e, nesse caso, é necessário apresentar os documentos carimbados. 

Forte de Santa Teresa, a menos de 50 km dali

O Parque Nacional de Santa Teresa – que abriga a Fortaleza de mesmo nome – começa bem próximo à fronteira com o Brasil. A partir daí são mais de 3.000 hectares de vegetação nativa, com muitas trilhas para caminhada e uma grande área de camping. Como o parque é litorâneo, distinguem-se quatro praias na região: La Moza, Playa del Barco, Playa Grande e Las Achiras. Trata-se de um famoso destino turístico do litoral uruguaio. 

o céu aqui é maior

Como o Uruguai está localizado no extremo Sul do continente americano, quem visita o país pode observar uma perspectiva diferente do céu. Ainda mais se levarmos em conta a geografia uruguaia, com suas terras planas que dão uma outra noção de horizonte. 

eu tinha imaginado meio diferente

A frase expressa a opinião de uma das personagens sobre o Parque Nacional de Santa Tereza. Apesar de sua beleza, o local, próximo ainda à fronteira, pode não representar grandes transformações culturais ou visuais. E a grande quantidade de turistas pode ser considerada um aspecto negativo por alguns viajantes. 

placa de Wi-Fi livre

Essa é uma dica de economia em qualquer viagem. Em diversas cidades, por todo o mundo, já existem zonas com wi-fi liberado ou estabelecimentos que oferecem o serviço de graça ou em troca de alguma compra feita. Aproveitar essas oportunidades para comunicar-se com amigos e parentes é uma boa dica para quem quer economizar. 

Vamos tocar no Restaurante Don Quijote hoje

Este não é um post patrocinado. A ideia aqui não é vender o local, senão narrar uma experiência pessoal, com personagens fictícios, mas com informações reais. Dito isso, o restaurante em questão é uma das opções de Punta del Diablo, sendo um estabelecimento com mais de 20 anos de tradição que oferece parrillas tradicionais, pizzas, pastas, etc. Assim como outros bares e restaurantes do vilarejo, geralmente há música ao vivo no local (principalmente na alta temporada). 

La Pedrera, que fica só a uma hora e meia daqui

La Pedrera é um balneário formado por duas praias, com formações peculiares de rochas e rochedos. Trata-se do vilarejo seguinte à Punta Del Diablo, seguindo pela costa uruguaia. Assim como a vizinha, La Pedrera também é turística e bastante visitada por jovens e surfistas, com um clima mais agitado e festeiro no verão. 

Tchuim, tchuim, tchun, clain… Tchuim, tchuim, tchun, clain…

Referência à música cantada no episódio Branca de Neve e os sete Tchuim Tchuim Tchun Claim, do clássico infantil Chapolin Colorado. Relembre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=HslJULoakVc

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