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RECENSEAMENTO

O agente do recenseamento anda pelas ruas, tentando a todo custo fazer o seu trabalho.
Elas estão por todo canto: no trânsito, nas calçadas, nas casas, encostadas nos muros; mas não falam com ele.

E se elas falassem, será que ele as ouviria?
Falariam baixa e calmamente, sem nunca elevar o tom da voz, como num murmúrio, como num rangido contínuo.

Se elas falassem, não falariam delas, mas antes, dos canais que elas cruzam diariamente.

Canal – AshuSha500px(CC-BY-NC-ND)

São 165 canais pela cidade, mais do que em Veneza.

E nosso agente passa por um deles no momento, quando vê duas delas paradas uma ao lado da outra. Ele aproxima-se e tenta puxar conversa:

– Ao menos me digam seus nomes, quantos anos têm, há quanto tempo estão aqui?

Nada.
Se elas falassem, prefeririam falar das pontes.
E haja ponte pra falar, 1.281 pontes.

Se elas falassem, com certeza, escolheriam aquelas pontes de onde se avistam as casas-barco.
Uma vida um tanto poética se você não tiver labirintite.
Mas o dia a dia nem sempre é tão poético.

moinho – Markus van Hauten – 500px(CC-BY-NC-ND)

Por isso, se elas falassem, também lembrariam da chuva, da neve, do frio e principalmente do vento que chega a desequilibrá-las.
Um vento que move moinhos.

 

Agora, porém, não está ventando tanto. E nosso recenseador continua com seu caderninho, anotando tudo que pode, mesmo sem falar com elas.

Lá está uma família. Ele observa, mas nem pensa em para-la. Não falariam com ele.
Se elas falassem, diriam que estão enfeitadas assim para comemorar a primavera.
E que saíram a passear só pra olhar mais uma vez aquelas fachadas estreitas de arquitetura peculiar que tanto as encanta.

Primavera – coco parisienne – pixabay

Se elas falassem não esqueceriam de dizer sobre as tortas de maçãs, os cones de batata frita com maionese, os waffles e sobre as sacolas do Albert Hejn que carregam.
Mas o agente do recenseamento não quer saber desses pormenores.
Ele quer números, estatísticas.
Pobre agente.
Se elas falassem, não contariam nada.
Já perderam as contas.
Perderam as contas de quantas vezes foram de casa pro trabalho, do trabalho pro coffeeshop, do coffeeshop para aonde mesmo?

Se elas falassem, não contariam sobre as saias que já viram levantar, sobre os zíperes que já viram se rasgar, sobre os roubos dos quais já foram vítimas.
Se elas falassem, poderiam dizer tudo que acontece no Red Light District.
Mas elas são discretas. Não falam.
Mas sabem de tudo. Vêem de tudo. Carregam de tudo.

Cruzam a cidade de um lado a outro. Estão em todas. Estão por todo lugar.
Estão na Dam Square, na Museumplein, na Hauptbahnhoff, em Amstel, em Almstelveen

Opa, nosso agente do censo quase é atropelado por uma delas. Ele xinga, sem alterar a voz, como todo bom holandês.
Se elas falassem, não pediriam desculpas.
Elas não têm culpa. São muitas.

Ele continua calculando, observando, anotando, somando.
Elas continuam indo, passam umas pelas outras, cruzam-se, confrontam-se, desviam, aceleram, freiam.

Sinal vermelho.

Nosso agente também para.
De repente, quando a luz verde se acende no semáforo das bicicletas, outra se acende na mente dele.
Ele conclui: são mais numerosas que as pessoas.

881 mil bicicletas para 811 mil habitantes.
Se as bicicletas de Amsterdam falassem, não teriam palavras para dizer o orgulho que sentem de viver numa cidade assim.

Bicicletas em Amsterdam – Jace Grandinetti – unsplash

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

São 165 canais pela cidade/E haja ponte pra falar, 1.281 pontes

Segundo o consulado do país, a cidade mencionada no texto possui 165 canais – superando a cidade de Veneza – e 1.281 pontes para fazer a travessia sobre eles. Há pontes de pedra, de madeira e de metal, pontes estáticas e levadiças, curtas e extensas, retas e com arcos, de todos os tipos, enfim.

casas-barco

A dita cidade tem de centenas a milhares de casas-barco instaladas em seus canais (o número preciso de casas-flutuantes varia conforme a fonte). São residências com os mesmos cômodos e utilitários das casas convencionais, mas com algumas adaptações necessárias e o grande diferencial de ter água em vez de grama em seu quintal.

Pode parecer divertido, porém, morar em uma dessas não é para qualquer um: os preços chegam a superar os de casas tradicionais e a manutenção é trabalhosa. Além disso, não se pode mais colocar novas casas-barco nos canais da cidade. Mas se você quiser experimentar a experiência por alguns dias, pode considerar alugar uma quando for visitar. Sites como booking.com e airbnb.com.br oferecem essa opção entre suas alternativas de hospedagem.

da chuva, da neve, do frio e principalmente do vento

O clima na mencionada cidade é de temperaturas amenas, de -1o C no inverno a 22o C no Verão (em média). Mas venta muito no local, muito mesmo, o que pode gerar sensações térmicas bem inferiores a isso. A neve é rara, mas pode ocorrer com intensidade algumas vezes. Além do mais, a chuva é uma constante em todas as estações, em todos os meses e, geralmente, em todas as semanas.

Um vento que move moinhos

Venta tanto no local que os moinhos de vento são alguns de seus símbolos mais tradicionais. Atualmente, a energia eólica também é aproveitada em turbinas de vento, enquanto os moinhos antigos, clássicos, são catalogados e preservados.

estão enfeitadas assim para comemorar a primavera

Assim como toda a cidade, as personagens do texto também enfeitam-se com flores quando chega a primavera, causando um belo e colorido espetáculo visual.

fachadas estreitas de arquitetura peculiar

Casas e prédios típicos do século XVII são comuns pela cidade, a maioria deles estreito e fora de prumo, inclinado para um dos lados. A explicação para a pouca largura das construções é que, antigamente, o imposto pago pelos proprietários era calculado de acordo com a largura da fachada, o que levou a construções mais finas e altas, com escadas espiraladas.

A dificuldade de levar móveis por essas escadas levou à segunda característica, já que a maioria dessas construções possui roldanas instaladas nas fachadas para a passagem de móveis pelas grandes janelas e, assim, foi propositadamente construída com certa inclinação para frente a fim de evitar que os móveis se choquem com a fachada e com as janelas ao ser içado. Muitos ainda dizem que a instabilidade do solo do país pode levar também a inclinação dos prédios.

O certo é que o visual criado é, no mínimo, intrigante, uma espécie de ilusão de ótica em que, ora os prédios parecem estar se aproximando, ora se distanciando.

sobre as tortas de maçãs, os cones de batata frita com maionese, os waffles e sobre as sacolas do Albert Hejn

Os próprios moradores admitem que falar em uma culinária típica do país pode parecer uma grande bobagem. É claro que há algumas delícias tradicionais para se comer na cidade, mas daí a dizer que são comidas típicas há uma grande distância. Por exemplo, a batata frita com maionese é um clássico das ruas: um cone de papel cheio de batatas fritas com um punhado de maionese por cima (ou outro molho à escolha). Outra opção muito vista nas ruas da cidade são os waffles (belgas), mas com montes de coberturas, de frutas e chocolate. A torta de maçã, a sopa de ervilha e os laticínios em geral (queijos, iogurtes, etc.) também fazem sucesso por lá. Albert Hejn é uma cadeia de supermercados exclusiva do país que está presente em absolutamente todas as regiões.

coffeeshop

Coffeeshop neste caso não é uma loja de café, é o nome dado ao estabelecimento que comercializa produtos relacionados a cannabis, como cigarros de maconha, haxixe e outros similares. Normalmente, pode-se comprar e fumar no próprio local. A maioria oferece também bebidas não-alcóolicas e lanches para a hora da larica. Em alguns casos, é preciso consumir para sentar e fumar no local. Os ambientes costumam ser descolados, com pinturas psicodélicas, vídeos e músicas inspiracionais. Mas tem um ponto importante: não é permitido fumar cigarros de tabaco dentro dos coffeeshops nem consumir bebidas alcoólicas ou outras drogas. Como o comércio é regularizado na cidade, há locais específicos para venda e consumo de cada coisa: sejam bares, tabacarias, coffeeshops ou magicshops, tentando assim garantir maior consciência e segurança dos usuários.

os roubos dos quais já foram vítimas

As personagens dessa história são algumas das maiores vítimas dessa cidade tão segura. Quase 100 mil delas são roubadas por ano e cerca de 25 mil terminam no fundo dos canais, segundo dados da Wikipedia.

Red Light District

É um dos bairros mais polêmicos entre os turistas, mas na cidade, é encarado com bastante naturalidade. Fato é que, no país, a prostituição é legalizada. E concentram-se nesse bairro muitas garotas de programa, em quartinhos com janelas enormes, verdadeiras vitrines, a partir das quais elas tentam chamar a atenção dos passantes. Mas passa por ali todo tipo de gente, de moradores, senhoras e famílias a verdadeiros clientes em potencial. O policiamento é ostensivo, garantindo a segurança de todos e a não tomada de fotos. É proibido fotografar as meninas. Ademais da curiosidade, o bairro é muito bonito, fazendo valer a visita.

na Dam Square, na Museumplein, na Hauptbahnhoff, em Amstel, em Amstelveen

Tratam-se de bairros e regiões da mencionada cidade. A Dam Square é uma praça situada no centro histórico, onde encontram-se restaurantes, bares e edifícios históricos como o Palácio Real (Koninklijk Paleis) e a Igreja Nova (Niewe Kerk). A Museumplein é a praça dos museus, localizada entre os museus Van Gogh e Rijks, próxima ao museu Stedelijk. A Hauptbahnhoff é a estação rodoviária central. Amstel é um rio que passa pela cidade e empresta o nome a uma de suas ruas. Amstelveen é, na verdade, uma pequena cidade conurbada, mas percebida como zona residencial da vizinha.

sem alterar a voz, como todo bom holandês

Diferente de povos calorosos e intensos, como os italianos ou os espanhóis, os holandeses por sua vez costumam ser mais reservados, com um comportamento social mais comedido, uma postura mais controlada e, às vezes, indiferente. Um dos pontos mais notáveis dessa característica é o tom de voz usado pelos holandeses em locais públicos, quase sempre baixo e controlado.

881 mil bicicletas para 811 mil habitantes

As personagens principais do texto, como se pode notar ao final, são as bicicletas, verdadeiras vedetes de Amsterdam. São mais 500 km de ciclovias pela cidade e centenas de milhares de ciclistas o tempo todo em todos os lugares. O transporte público também é adaptado, com espaços para levar as bikes de um ponto ao outro quando necessário. Segundo o jornal El Comercio, 60% da população amsterdanesa move-se de bicicleta. E com isso, os acidentes de trânsito tiveram uma redução absurda nos últimos 20 anos (de 100 para 15). Não é para menos. Desde nenês, os amsterdaneses já são levados em uns trenózinhos instalados nas bicicletas dos pais. Aos dois ou três anos, alguns já tem a primeira bicicletinha. E crescem acostumados a pedalar, para todo lado, com todo tipo de roupa, em qualquer temperatura ou condição climática, carregando o que for. Em Amsterdam, andar de bicicleta é mais que uma forma de transporte, é um estilo de vida.

Cargobike – newsOresund – Wikimedia(CC-BY2.0)

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