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QUEM TEM BOCA VAI À ROMA

Mas cuidado se for de motorhome.

– Tem certeza que é aqui o estacionamento? – perguntou Lia ao noivo, enquanto manobrava o motorhome.

– É o que diz aqui no livro do ACSI. Este é o único que mostra aqui para motorhome, gratuito, próximo ao Coliseu, a essa hora.

– Mas será que é seguro? Está tão escura esta rua. Você tá vendo alguém ali naquelas árvores ou naquelas barras de exercício?

– Não, amor, não estou vendo ninguém. Anda, deixa disso – respondeu João já impaciente – Não foi tudo bem até agora, da Alemanha até aqui?

– É… tá bem, tá bem. Vamos. Me ajuda a fechar as cortinas.

À espreita, na sombra de uma árvore, dois jovens observavam e combinavam algo entre si. Devagar foram se aproximando do motorhome, cada um apertando algo entre os dedos e fazendo gestos de silêncio um para o outro.

Lia e João saltaram do motorhome pela portal lateral; recolheram a escadinha; fecharam a porta e conferiram tudo. Abraçados, saíram da Via dele Terme di Caracalla, passando pelo Parco di Porta até a Via di San Gregorio, que ia dar no Coliseu. A noite estava fresca e estrelada e fazia os corações apaixonados faiscarem. Mas também acendia outras paixões menos românticas, como a daqueles outros dois jovens perto dali.

Um deles tinha o nariz encostado à janela do motorhome.

– Não dá pra ver nada lá dentro.

– Claro, farabutto. Eles fecharam as cortinas. Temos que quebrar a janela.

– Mas não é tão fácil. Parece um plástico bem duro, olha – falou, batendo com o canivete no acrílico.

– Porca miseria! Me ajuda a quebrar as fechaduras da janela, então, pra tentar abrir e ver o que tem lá dentro.

Enquanto isso, João e Lia, desapercebidos do tempo, contemplavam o Coliseu, sentados num barranco coberto de grama, de frente para o monumental anfiteatro.

Coliseu à noite, Roma – Simon – pixabay

Àquela hora, a visitação diária já havia sido encerrada fazia tempo. E em vez da multidão que tomava o local durante as manhãs e tardes, agora, apenas alguns grupos esparsos de jovens passavam por ali ou concentravam-se num cantinho, bebendo e rindo. O que não era nada diante da imensidão daquela construção secular.

– Sabia que ele tem mais de 48 metros de altura, amor? – João olhava o Coliseu e relembrava as aulas de engenharia, enquanto habilmente enrolava um cigarro entre os dedos. Acendeu, tragou e ofereceu-o para Lia, que tirava fotos e mais fotos.

Coliseu noturna – Roma  – wolfgang1663 – pixabay

 

– Você reparou na iluminação, que linda?! – reparou Lia – É incrível como ele resistiu a tanto tempo, tantos tremores e, mesmo em ruínas, continua tão imponente.

– Incrível é como um palco de lutas pode ser tão encantador. – comentou João – Se não me engano, em três ou quatro séculos, foram mais de 10 mil gladiadores mortos em combates, entre si ou com feras selvagens, sabia?

– Ui, credo; sério? Quanta violência! – respondeu Lia horrorizada.

– Sim, e o público ia ao delírio com os jogos. Cabiam mais de 50 mil pessoas aí. Mas não acho tão estranho. Era como o boxe ou o MMA deles, amor.

– Você sabe que não gosto dessas lutas. – falou Lia – Mas entendo o que você diz. Afinal, até hoje, mais de 3 milhões de pessoas vêm visitar o Coliseu todo ano. Tanta gente que pode ser até perigoso.

– Perigoso? Por que?

– Ah, sei lá, onde tem muita gente de todo lado sempre é mais propenso a ter assaltos, essas coisas. Não? Aliás, não era melhor a gente voltar pro motorhome? – sugeriu Lia – Fico preocupada com ele naquela rua escura.

– Hmmm… tá bem. Amanhã voltamos durante o dia para visitar o Coliseu por dentro.

João e Lia tiraram ainda uma última foto, se entreolharam, se beijaram, deram as mãos e voltaram, enamorados e felizes, pelo mesmo caminho.

Coliseu à noite – Roma – galadrim – pixabay

Chegaram ao motorhome, entraram, fecharam novamente a porta atrás de si. Tudo parecia bem.

Viu, não falei que era seguro? – João falou enquanto começava a preparar a mesa para o lanche – Abre as janelas para nós, amor. Tá abafado aqui.

Lia abriu uma trava da janela lateral; abriu duas; na terceira, percebeu:

– Amor, socorro. Acho que o motorhome foi arrombado.

– Como? Está tudo intacto. – falou João, virando-se para ela.

– Então, eles tentaram arrombar. Olha!

– Puxa, é verdade. Quebraram duas das quatro travas da janela. Não devem ter tido tempo de completar o serviço. Que bom que o motorhome é resistente.

– Resistente? Resistente é você, João. Eu não falei que a rua parecia insegura para deixarmos nossa casa aqui?

– Calma, linda. Veja pelo lado positivo. Foram só as duas travas, não aconteceu nada com a nossa casa. E nós podemos tirá-la daqui agora mesmo. É só dar a partida. Vamos?

– Tá bem, vamos. Mas vamos para aonde? – perguntou Lia, ainda nervosa.

– Ué, quem tem boca vai a Roma e quem tem motorhome é mais seguro ir a um camping.

passando de motorhome pelo Coliseu, em Roma – Estante de Viagens

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

panorâmica Coliseu/Roma durante o dia – Logga Wiggler – pixabay

livro do ACSI

O CampingCard ACSI é, na verdade, composto por dois livros, que indicam a localização de milhares de campings e estacionamentos em 20 países da Europa. Traz ainda um cartão que oferece descontos fixos nesses campings durante todo o ano (exceto em duas semanas de Julho e Agosto). Com o cartão em mãos, uma noite nesses campings tem preço fixo entre €11 e €19 (incluindo 2 pessoas, um carro ou motorhome e uso de chuveiros). O CampingCard ACSI pode ser adquirido em diversas lojas por toda a Europa e também pela internet.

será que é seguro?

Como em todas as capitais e grandes cidades, Roma é um lugar em que é bom tomar alguns cuidados. A sensação geral é de segurança. É possível andar a pé pelo centro a noite, tomar ônibus e táxis sem maiores problemas. Mas é bom ficar atento a ocorrência de assaltos e furtos.

mais de 48 metros de altura

De acordo com o Guia dos Curiosos, o Coliseu tem 188 m. de comprimento, 156 m. de largura e, originalmente, tinha 52 m. de altura. Mas hoje, mede apenas 48,5 m.

resistiu a tanto tempo, tantos tremores e, mesmo em ruínas, continua tão imponente

Segundo a revista Mundo Estranho, desde a construção do Coliseu, vários terremotos já abalaram sua estrutura. O primeiro grande tremor teria acontecido no século V; depois, no século IX, outro terremoto destruiu as colunas do piso superior e, em 1231, um forte abalo derrubou parte da fachada externa. Durante a Idade Média, o mármore e o bronze de sua estrutura ainda teriam sido roubados e usados para ornamentar igrejas e monumentos católicos. Mesmo assim, hoje, em ruínas e sob ameaça de desabamento, a construção colossal ainda mantém sua majestade.

mais de 10 mil gladiadores mortos

As comemorações pela conclusão do Coliseu, no ano 80, duraram cerca de 100 dias e envolveram combates com centenas de gladiadores e cerca de cinco mil animais mortos, além de batalhas navais, caçadas e outros divertimentos à moda da época. O anfiteatro foi o principal palco de lutas da cidade até o ano de 404, quando o imperador Flávio Honório proibiu os jogos com mortes humanas.

Cabiam mais de 50 mil pessoas aí

Inicialmente, o anfiteatro tinha capacidade para receber cerca de 50 mil espectadores. Mas durante o reinado de Alexandre Severo, o Coliseu ganhou mais um andar e chegou a ter capacidade para receber 90 mil pessoas.

voltamos durante o dia para visitar o Coliseu por dentro

O anfiteatro está aberto a visitação todos os dias a partir das 8h30. O horário de encerramento das visitas é que varia, sendo marcado para uma hora antes do pôr do sol. Assim, no inverno as visitas acabam às 16h30, enquanto no verão podem ir até as 19h15. Vale a pena consultar o site oficial com todas as informações detalhadas. Ah, comprar o ingresso antecipado pela Internet pode ser uma ótima dica para evitar as filas.

quem tem motorhome é mais seguro ir a um camping

Em vários países/cidades da Europa, é possível encontrar estacionamentos próprios para motorhome (bem sinalizados) e outras áreas abertas de estacionamento para veículos diversos. Tomando alguns cuidados básicos, é possível até economizar com o camping uma noite e dormir em um desses estacionamentos (seja pela beleza do local, pela melhor localização ou outro motivo). Mas é sempre válido manter o motorhome trancado, não deixar pertences a vista, evitar locais proibidos ou suspeitos e ter outros pequenos cuidados desse tipo. De qualquer forma, a opção mais segura e confortável geralmente é o camping. Apesar de localizarem-se normalmente longe dos centros, esses locais possuem grandes estacionamentos, têm toda a infraestrutura de energia e água para o motorhome e costumam ser muito bem equipados, com banheiros, restaurantes, lojas de conveniência, área de lazer, etc.

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