PERDENDO-SE EM VENEZA

Encontrando-se no mundo.

 

Não era por causa da moda. Muito antes de surgir o termo lumbersexual, Bianca já era apaixonada pela barba cerrada do marido Bernardo. E a filha, Betina, parecia ter herdado o gosto pela cara peluda do pai.

– Olha aí, ela até para de chorar quando pega na sua barba. – comentou Bianca – Além do mais, já tá na hora de sairmos. O ônibus pra Veneza passa em 10 minutos. Nada de fazer a barba agora, amor.

Tinham decidido ficar hospedados no bairro de Mestre, na parte continental e mais convencional da cidade, onde encontraram preços também mais baixos. Mas estavam de saída para a ilha de Veneza. O ônibus os deixaria direto na Piazzalle Roma, última parada para automóveis na parte insular.

ônibus para Veneza – kihij/wikimedia (CC-BY-4.0)

– Será que vamos pagar a mais no ônibus pelo carrinho da Betina? – perguntou Bernardo.

– Acho que não, amor. Isso acontecia lá em Amsterdam com as bicicletas. Aqui, se bem me lembro, o ônibus custa uns 3,00 euros ida e volta. E o trem, 2,50. Mas o ônibus passa logo aqui na frente do hotel. Só temos que ir logo a um tabacchi comprar os billetos.

– Uau! Tá bem. Que memória! – impressionou-se o marido.

– Viagens, amor, viagens… – quando se tratava de viagens, Bianca tinha respostas na ponta da língua.

Bernardo ia sentado, com Betina num canguru, segurando sua barba. O carrinho à frente. Bianca ia em pé ao lado. O ônibus estava cheio. De repente, um homem se aproximou e perguntou em inglês:

– Excuse me. Do you know what´s the stop to Venice?

(Com licença, você sabe qual é a parada para Veneza?)

– Sure. It’s the last one in Piazzalle Roma. Probably the most part of people here will be leave in this stop. Include us. – Bianca respondeu simpática e prontamente.

(Claro. É a última parada, na Piazzalle Roma. Provavelmente, a maioria das pessoas vai descer nessa parada. Inclusive nós.)

– Oh thanks. You’re very helpful.

(Oh, obrigado. Você foi muito solícita.)

– You’re welcome.

(Não há de quê.)

O homem voltou para junto de sua mulher. O ônibus atravessava a Ponte della Libertá. De um dos lados, passou o trem velozmente. Do outro, iam alguns carros. Ao longe, a ilha.

Ponte della Libertá – DidierDescouens/wikimedia (CC-BY-4.0)

Mas não tão longe. Em menos de 15 minutos estavam lá. O ônibus estacionou. Bianca e Bernardo desceram e pararam na calçada para se organizarem com as coisas de Betina. Bianca abraçou o marido:

– Pronto para se perder, meu barbudo?

O marido não respondeu. Prestava atenção no homem que havia perguntado sobre a parada para Veneza. Ele estava ali ao lado com a mulher, ambos parados com cara de susto. O homem se aproximou novamente:

– Oi, vocês são brasileiros? Desculpe, não tive como não notar.

– Opa, somos, sim. Bernardo, Bianca e Betina. Muito prazer.

– Puxa, que bom. – admirou-se o recém-chegado – Então, antes de tudo, você sabem como a gente faz pra se achar aqui?

– Ih! O bom de Veneza não é se achar. É se perder. – começou Bianca – É ir andando sem rumo por esse labirinto de ruas estreitas, apreciando as lojinhas, as máscaras, as casas, as escadas, os canais. Em várias ruas tem plaquinhas para a Ponte Rialto e para a Piazza San Marco, mas uma hora ou outra você acaba chegando lá. O legal é o caminho, como em toda viagem.

 

– Puxa, quanta informação. – riu-se o outro brasileiro – Que engraçado. No ônibus, eu e minha esposa tínhamos comentado que vocês pareciam uma típica família de Veneza.

– Hahahaha – Bernardo riu – Deve ser a barba que me deixa com cara de italiano. Mas você chegou falando inglês, não foi? E afinal, somos todos brasileiros.

– É, na verdade, we’re all citizens of the world (somos todos cidadãos do mundo) – concluiu Bianca com suas respostas prontas.

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

 

hospedados no bairro de Mestre

Mestre é um bairro na parte continental de Veneza, bem mais convencional que a sonhada ilha. Por isso, os preços encontrados aí podem ser um pouco menores do que na parte insular de Veneza. E o acesso é fácil. Para ir de Mestre a Veneza (ou vice-versa) de transporte público, é possível optar por trem, ônibus e agora também por tram (metrô de superfície). Se preferir ainda dá para ir de táxi ou com veículo próprio.

O ônibus os deixaria direto na Piazzalle Roma

A Piazzalle Roma é uma grande praça na entrada da ilha de Veneza. Quem chega de Mestre de ônibus, trem, tram ou táxi para nessa praça. Quem chega de veículo próprio deve estacionar o carro em Tronchetto e pode pegar o funicular (People Mover) até a Piazzalle Roma para começar a conhecer a cidade do jeito tradicional: a pé ou de vaporetto (barcos responsáveis pelo transporte público em Veneza).

ir logo a um tabacchi comprar os billetos

Em Mestre, nem todo ônibus possui máquina que vende bilhetes, portanto, é bom comprá-los antes em um “tabacchi”, uma espécie de tabacaria ou vendinha. Ao entrar no ônibus ou tram é preciso validar o bilhete em uma máquina específica. Não há ninguém conferindo isso e a fiscalização é ocasional, mas quem é pego sem bilhete é multado.

Ponte della Libertá

É a única via de acesso terrestre à cidade de Veneza em si (ilha), por onde passam trem, tram, ônibus e carros. Com 3.850 m de comprimento, atravessa a Laguna de Veneza, ligando a parte continental (Mestre) à Piazzalle Roma (já na ilha de Veneza).

O bom de Veneza não é se achar. É se perder.

Apesar da expressão ser um clichê quando se fala de Veneza, perder-se é exatamente o que todos fazem quando chegam lá. Isso porque a porção histórica da cidade (acessível pela Piazzalle Roma) é mesmo labiríntica. Um emaranhado de ruas e vielas estreitas, todas irregulares, seguindo um sistema de localização medieval implantado em 1050 e que vigora até hoje com poucas alterações.

Para se ter uma noção, a cidade é dividida em seis sestieri (espécie de bairros) que, por sua vez, são subdivididos em paróquias (na prática, a área de atuação das igrejas), as quais ainda são integradas pelas calles, fondamentas, stradas, sotoportegos, campos, rugas, rios e rio-terá (diferentes espécies de vias). Então, aproveite que você tem um bom pretexto e perca-se à vontade.

uma das ruas de Veneza – tpiety/pixabay

 

para a Ponte Rialto e para a Piazza San Marco

Dois dos principais e mais fotografados pontos turísticos de Veneza, ambos acessíveis apenas a pé ou em transporte aquático.

A Ponte de Rialto é a mais antiga e famosa da cidade. Trata-se de uma ponte em arco que atravessa o Grande Canal, sob a qual passam, atualmente, mais de 1.600 barcas, 700 táxis aquáticos e 200 gôndolas a cada 10 horas (dados da Wikipedia).

A Praça de São Marcos (Piazza San Marco) é a principal atração de Veneza e um dos mais amplos espaços urbanos da ilha. Situada no coração da cidade (chega-se lá após percorrer um bom labirinto), a Piazza é rodeada por diversos pontos de interesse, como: a Basílica de São Marcos, o Palazzo Ducale, a Torre do Campanário, a Torre dell’Orologio, o Museu Correr, a Biblioteca Marciana e comércios tradicionais como o Café Florian. Já foi elogiada como “o salão mais bonito da Europa” (le plus élégant salon d’Europe) e é repleta de turistas, comerciantes e artistas de rua, além de muitos fotógrafos e uma infinidade de pombos.

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