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NEM TUDO É O QUE PARECE

Às vezes um defeito pode ser a sua maior qualidade.

 
Era torta. Sentia-se sempre pendendo para um lado. Seria o peso das preocupações? Sabia que era assim desde nascença. A família era bem-estruturada, mas ela não podia dizer que havia tido uma base sólida. Sentia-se afundar, enquanto os pais discutiam com os vizinhos. Aos 25 anos, deram-lhe relógios e deixaram-na de lado.

 

Ela começou a contar o tempo. E 74 anos se passaram. Seus pais voltaram e ela estava lá, torta. Será que ainda dava para consertar? Bem que tentaram. Ensinaram a ela novos pontos de vista, novas inclinações. Mas a essa altura, isso só a fez entortar em outra direção. E os pais, sentindo-se derrotados, só voltaram a revê-la no século seguinte.

 

Continuava torta. Mas eles não desistiram dessa vez. Tentaram harmonizar seu estilo românico com elementos góticos e começaram a trazer-lhe sinos. Foram sete ao todo. Um para cada nota musical. Foi quando ela descobriu sua vocação.

 

Queria badalar. Queria que sua música fosse ouvida. Queria ser vista. E assim foi. Turistas do mundo inteiro começaram a visitá-la. Rodeavam-na, observavam-na. Não por sua música, mas porque era torta. Mesmo assim, sentia-se importante. Afinal, nessas horas, a família ficava sempre em segundo plano. Era ela a atração principal. Queriam tirar fotos com ela. Seguravam-na, empurravam-na, tentando desentortá-la.

 

De campanário passara a obra de arte. De tão visitada e fotografada já tinha se tornado clichê. De tão torta, tinha até adaptado para si um ditado popular: torre que nasce torta, tarde ou nunca se endireita. E que bom.

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

O texto é uma abstração sobre a história da Torre de Pisa – campanário da catedral da cidade italiana de Pisa.

catedral de Pisa com a Torre ao fundo – Estante de Viagens

 

 

Confira a história real

A construção da torre começou em agosto de 1173, mas três metros da sua fundação foram feitos sobre uma parte do solo fraca e instável (-não podia dizer que havia tido uma base sólida-), devido a isso, uma ligeira inclinação em sua estrutura foi percebida já em 1178, quando a construção estava no terceiro andar. Mas como os pisanos viviam envolvidos em batalhas com os habitantes de Gênova, Lucca e Florença (-os pais discutiam com os vizinhos-) e tinham mais com que se preocupar, as obras eram constantemente paralisadas. Assim, em 1198, foram colocados os relógios na construção inacabada (-deram-lhe relógios-) e ela só foi retomada em 1272 (-E 74 anos se passaram-), quando o arquiteto Giovanni di Simone envolveu-se num esforço para compensar a inclinação, construindo andares com um lado mais alto que o outro (-Ensinaram a ela novos pontos de vista, novas inclinações-), o que só fez a torre inclinar em outra direção, tornando-se realmente curva.

Torre de Pisa – detalhes da base – Estante de Viagens

continuação

Em 1284, a construção foi interrompida outra vez, em decorrência da derrota dos pisanos pelos genoveses na Batalha de Meloria, e só em 1319 foi concluído o sétimo andar da torre (-os pais, sentindo-se derrotados, só voltaram a revê-la no século seguinte-). Em meados de 1372, Andrea Pisano construiu a sino-câmara da torre em estilo gótico, harmonizando-a com o estilo românico pré-existente. A partir de então, foram instalados ao todo sete sinos no local (-Um para cada nota musical.-), transformando a construção, finalmente, no campanário que estava destinada a ser (-Foi quando ela descobriu sua vocação.-).

topo da Torre de Pisa com sinos – Estante de Viagens

atualmente

Atualmente, a torre pendente de Pisa, em virtude de sua eventual inclinação (outrora considerada como um defeito), atrai turistas do mundo inteiro que movimentam a cidade durante todo o ano. E muitos desses turistas saem de lá com divertidas fotos que brincam com a perspectiva de primeiro e segundo plano, dando a impressão de que seguram ou empurram a torre (-Queriam tirar fotos com ela. Seguravam-na, empurravam-na, tentando desentortá-la.-). As fotos já se tornaram um clichê; a inclinação da torre continua sendo uma poética tradição.

Torre de Pisa – Estante de Viagens

o experimento de Galileu

O famoso experimento que teria sido realizado por Galileu Galilei na Torre de Pisa, sobre a teoria da queda dos corpos, não foi mencionado na narrativa pois, de acordo com renomados historiadores (como Alexandre Koyré), o fato não ocorreu verdadeiramente. A experiência trata-se, na verdade, da romantização da história do ilustre pisano, que teria provado sua teoria por outros meios.

 

 

 

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