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NASCIDO E CRIADO EM BERLIM

Uma cidade que muda e provoca mudanças.

Eu nasci em 1988, em plena Potsdamer Platz, em Berlim.

Na época, aquilo era um imenso descampado abandonado.

O clima úmido ajudava a vegetação a crescer sem controle no local.

E minha mãe me deu a luz embaixo de um daqueles arbustos de árvores.

Bem ali no Triângulo de Lenné, como ela dizia.

Lembro pouco de meus primeiros anos.

Vez ou outra, umas imagens de punkys, economistas e policiais me vêm à cabeça.

O que nunca esqueço são minhas lições de caça.

E o sumiço de meus irmãos, em 89 ou em 90, quando o muro caiu.

 

PotsdamerStrasse, em 1986, ainda com o Muro – Nancy Wong – Wikimedia

 

Aquilo virou uma confusão de gente.

A cidade inteira deve ter virado.

Mas eu não podia sair dali.

A Potsdamer Platz era minha casa.

Era não, ainda é.

Eu acompanhei cada transformação desse lugar aqui.

Conheço cada buraco de rato desse quarteirão.

Eu vi pessoas reencontrando umas às outras depois da queda do muro.

E vi pessoas reencontrando-se com o capitalismo também.

Eu vi engenheiros, arquitetos e peões chegando aos montes.

Cuspi uma bola de pêlo quando disseram que iam reintegrar todo o sistema de transporte.

Logo vieram as obras de verdade. Isso aqui virou um imenso canteiro.

Não me deixavam dormir.

Logo eu que sempre amei dormir.

Pulava de uma construção para outra procurando um canto mais tranqüilo.

Me diverti horrores com a abertura dos túneis no subsolo.

Aquela época, eu podia ir aonde meus bigodes me levassem.

Podia entrar em qualquer lugar que minha cabeça pudesse passar.

 

Potsdamer Platz/Berlim, em 2001 – Ziko – Wikimedia(CC-BY-3.0)

 

O complexo da Daimler-Chrysler foi o primeiro a ficar pronto.

Agradável o lugar, com praças, um prédio bem moderno, exposições itinerantes de arte.

Só não gosto dos espelhos d’água.

Para que tanta água? Eu nem gosto de banho.

Vou muito bem só com a minha toilet, obrigado.

Mas tem gente que adora reclamar dos meus pêlos.

Deve ser por isso que não me deixam mais entrar em lugar nenhum.

Não sei porquê. Tanta mulher carregando peles bem mais pesadas que a minha.

Ainda mais na época do Festival Internacional de Cinema.

Sim, porque depois que inauguraram o Sony Center, o Festival se mudou para cá.

Afinal, tem até cinema 3D no tal complexo e também um museu.

 

Sony Center, em Berlim – userKolossos – Wikimedia(CC-BY-3.0)

 

Uns anos depois, ainda inauguraram mais dois desses centros, o Beisheim e o Park Kolonnaden.

E hoje já são mais de 20 prédios em 10 ruas, com mais de 130 lojas, dois hoteis, um shopping, além de cinemas e teatros.

Mas um dos lugares que mais me chama atenção é o cassino.

Deve ser pela discrepância com o antigo descampado onde nasci.

E talvez também pelo que me aconteceu lá dias atrás.

 

cassino da Potsdamer Platz, em Berlim – Dirk Ingo Franke – Wikimedia(CC-BY-4.0)

 

Eu estava à espreita, caçando uma presa, quando vi uma mulher saindo do Spielbank Berlim – o cassino – seguida por um homem.

– Eu só vou até ali comprar uma bebida. – falou a mulher.

– Mas justo na hora que você conseguiu se aproximar da roleta? – ele perguntou.

– Você pode voltar lá para dentro e jogar. Eu não me importo. Mas eu vou tomar algo ali na frente, nem que seja um ar…

– O que deu em você, querida? Queria tanto conhecer um cassino, jogar na roleta como você vê nos filmes… e agora que estamos aqui…?

Tá bem, amor, confesso: agora que estamos aqui e que não é mais filme, eu percebi que aquela ficha que você me deu na mão vale 100 euros. E se eu não perder esse dinheiro num minuto num jogo, eu posso fazer um montão de outras coisas.

Aquela confusão espantou a minha presa.

Mas a mim o que me espantou foi a mulher.

E olha que vejo milhares de mulheres todos os dias.

Mas uma mulher de posses com consciência do dinheiro…

Uma dessas eu não via desde a Alemanha comunista…

Ah! Essa minha vida de gato.

Eu vivo, vivo e não vejo tudo.

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

 

Potsdamer Platz

A Potsdamer Platz é um dos locais mais movimentados e visitados de Berlim; uma importante praça e interseção de tráfego (a exemplo do Piccadilly Circus, em Londres ou da Time Square, em NY) que, nos anos 20 e 30, já era considerada o mais frenético centro de trânsito de toda a Europa. Devastada durante a Segunda Guerra Mundial (assim como boa parte da cidade), a Potsdamer Platz ficou abandonada durante o período de Guerra Fria, tornando-se um imenso vazio urbano. Em 1961, com a construção do Muro de Berlim, a Potsdamer Platz foi dividida entre a parte Oriental e a Ocidental (a fronteira deserta e desoladora é o cenário do início desse conto). Após a queda do Muro, em 1990 (ano em que Roger Waters fez o famoso show The Wall exatamente na Potsdamer Platz), a área passou por uma acelerada e intensa reconstrução arquitetônica, tornando-se o maior canteiro de obras do continente na época. Atualmente, a Potsdamer Platz voltou a ser um centro agitado, reunindo, agora, construções modernas, de arquitetura arrojada, além de diversas opções de lazer e entretenimento.

Triângulo de Lenné/punkys, economistas e policiais

O Triângulo de Lenné é uma parte específica da Potsdamer Platz, localizado entre a Lennéstrasse, a Bellevue Road e a Ebertstrasse. Curiosamente, quando a Potsdamer Platz foi dividida, o Triângulo de Lenné ficou do lado Ocidental do Muro de Berlim, mas politicamente a área era de propriedade da Berlim Oriental. Em março de 1988, um acordo foi fechado para uma troca territorial que regularizaria a situação (transferindo a propriedade do Triângulo de Lenné para a Berlim Ocidental). Porém, em maio de 88, diversos manifestantes e ativistas ocuparam o lugar, por posicionarem-se contrariamente aos planos do Senado para o espaço. Assim, pouco antes da queda do Muro, o Triângulo de Lenné foi palco de diversos confrontos entre civis e policiais, situação à qual faz referência o conto.

reintegrar todo o sistema de transporte

Durante a Guerra Fria, algumas estações de trem (S-Bahn) e de metrô (U-Bahn) da cidade de Berlim foram fechadas, tornando-se estações-fantasmas. Após a queda do Muro, com a reconstrução da Potsdamer Platz, o sistema de transporte da região foi reconectado e novas estações foram construídas aí. Atualmente, a Potsdamer Platz é bem servida por linhas de S-Bahn, U-Bahn e ônibus, além de possuir estacionamentos subterrâneos e abertos.

complexo da Daimler-Chrysler/Sony Center/Beisheim/Park Kolonnaden

Após a aprovação do plano arquitetônico de reconstrução da região, o Senado decidiu dividir a área em quatro partes, vendidas a diferentes investidores, correspondentes aos complexos acima citados. A maior das quatro partes foi negociada com a Daimler-Benz AG, cujo complexo abriga 19 prédios individuais de design arrojado, com escritórios da própria marca, firmas de advocacia, galeria de arte, além de um restaurante-café em uma casa pré-guerra restaurada. O Sony Center ocupa a segunda maior parte da região, com lojas, restaurantes, escritórios, cinemas e sofisticados flats. Nos dois outros centros que compõem a Potsdamer Platz, há ainda hotéis de luxo, restaurantes, museus, cassino, entre outros comércios e serviços.

Vale destacar também a surpreendente arquitetura desta parte de Berlim: além do visual inovador, o projeto foi planejado de forma bastante sustentável. Aproximadamente 60% dos tetos de todas as construções da Potsdamer Platz têm cobertura vegetal, contribuindo para reaproveitar a água, reduzir a temperatura dos edifícios e arredores, e ajudando a economizar energia no verão. Além disso, um sistema de cisternas e canais ajuda a recolher e reaproveitar a água da chuva, gerando economia também deste recurso. Espelhos d’água e canais ainda ajudam a compor a paisagem da região, tornando-a mais humana e agradável.

Festival Internacional de Cinema

O Festival Internacional de Cinema de Berlim, também conhecido como Berlinale, é um dos mais antigos e relevantes festivais de cinema do mundo. Lançado em 1951 e com ocorrência anual desde 1978, a mostra já possui imenso reconhecimento e tradição. Atualmente, são exibidos mais de 400 filmes, dos quais cerca de 20 concorrem aos prêmios principais, o Urso de Ouro e o Urso de Prata. O evento ainda conta com a presença de mais de 4.000 jornalistas, além de estrelas que abrilhantam o local. Recentemente, tem sido realizado no Sony Center, na Potsdamer Platz.

2 comentários sobre “NASCIDO E CRIADO EM BERLIM

    1. Opa, essa era a intenção da Estante mesmo, Beto. Que bom que curtiu. Afinal, sempre pode haver uma nova perspectiva sobre um assunto ou situação, não é?!

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