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MILÃO NÃO É SÓ MODA

Perdidos em um labirinto multicultural.

Pedro tinha se desencontrado dos amigos Mateus e Daniel. Sabia que devia ir procurá-los; não podia ficar perdido no meio de Milão. Porém, agora ele estava muito entretido observando as duas meninas que se beijavam no canto da sala. Disfarçava, folheando os livros da LIB@LAB. Mas não desgrudava os olhos daqueles lábios femininos tragando-se mutuamente. Vozes estrangeiras em línguas diversas aproximavam-se dos seus ouvidos. Ele distinguia pouca coisa. Alguém falava sobre invasões de antifascistas, sobre um assassinato. Com o pretexto de pesquisar o assunto, Pedro foi sentar-se num local onde um cartaz indicava “internet free” e ficou observando as duas meninas mais de perto.

A invasão de antifascistas – ou melhor, a ocupação de espaços abandonados por operários e revolucionários de diversas ideologias – era exatamente o assunto do filme que Daniel estava assistindo, neste momento, no Baretto. Recostado sobre um pufe perto da parede, viu libertários tomando o prédio da rua Mancinelli, em 75; viu os jovens Fausto e Iaio sendo assassinados, em 78; viu a tentativa de despejo, em 89, e o confronto sangrento com a polícia, envolvendo bombas de gás lacrimogêneo e coquetéis molotov. E finalmente, em 94, a mudança para a rua Watteau, não menos tumultuada.

resistência e protesto em Milão – cenas italianas, by facebook

Jogando penbolim, Mateus não pensava em nada disso. Pelo contrário, ria alto dos deslizes de seu adversário africano e comemorava cada gol. Terminando a partida – BRA 5×3 AFR – o novo amigo jamaicano o convidou para uma cerveja. Enquanto iam até o bar, Mateus reparava nos coloridos grafites que se multiplicavam em todas as paredes do lugar. Cores e mais cores, desenhos contestadores e contagiantes, frases de ação… O africano parou para conversar com um conterrâneo que vendia piercings, pulseiras e maricas de fumo, não sem antes dar diversas recomendações a Mateus sobre os lanches da Cucina Pop, todos feitos com ingredientes selecionados de pequenos produtores da região.

espaço alternativo em Milão – Wikimedia

Sem o jamaicano para orientá-lo, Mateus foi parar na área externa, ou melhor, num pátio interno aberto, ao redor do qual havia várias entradas para diferentes salas e salões. Alguém tocou em seu ombro: “Tem fogo?”. Estranhando ouvir a frase em português em plena Itália, ele se virou. Era Pedro.

– Onde é que você tava, irmão? Aliás, o Daniel não tava com você?

– Pensei que estivesse com você.

Nesse momento, ouviram palmas vindas de um salão no fundo cuja placa em cima dizia Baretto. A porta se abriu e um grupo de pessoas começou a sair dali, entre elas, Daniel.

Estavam todos no Leoncavallo – um centro social autogerido, o maior e mais conhecido da Itália. Abraçaram-se no reencontro. Não estavam perdidos. Tinham se achado. Tinham se encontrado neste espaço alternativo e tão cheio de alternativas, de gente misturada, de mentes abertas, de preços acessíveis; onde drogas leves eram permitidas, mas a homofobia e o racismo eram proibidos. E foram juntos aproveitar o show de reggae que começava na Foresteria, um dos vários salões daquele lugar utópico.

“Won’t you help to sing
These songs of freedom?”

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

Leoncavallo Spazio Autogestito em Milão – Agenzia Fotogramma

LIB@LAB/internet free

LIB@LAB é um espaço físico e conceitual, mantido de forma voluntária, dedicado à criação e distribuição de material informativo, à difusão do saber e da cultura independente, com particular atenção: à cultura jovem, ao movimento social emergente e à toda cultura da minoria. Há uma livriara, um espaço para troca de livros, computador com acesso livre a Internet, além de cursos de idiomas, serviço de apoio editorial e organização de eventos, como exposições, seminários, workshops, mostras teatrais, etc. O LIB@LAB funciona no local onde se passa esta história (revelado ao final), em Milão, na Itália.

Baretto

Pequenos bar onde são realizadas jam sessions de blues e jazz, shows de rock, além de apresentações de livros, cafés literários, projeções cinematográficas, leituras de poesias e debates. Todos os eventos possuem preços acessíveis, incentivando a frequentação de um público heterogêneo e multiétnico. O Baretto também está localizado no local revelado ao final da história.

viu libertários tomando o prédio da rua Mancinelli, em 75

A partir desta frase, o parágrafo conta a história do local que serve de cenário para esta crônica. O personagem Daniel está assistindo a um filme que conta as origens do local onde está, desde a ocupação do prédio da rua Mancinelli, em 75, até a mudança para a rua Watteau, em 94.  

um conterrâneo que vendia piercings, pulseiras e maricas de fumo

O local que é cenário desta história funciona como centro de acolhida de imigrantes e pessoas em situação de risco social, oferecendo alternativas de integração e (re)inserção social. Entre outras iniciativas, há cursos de idiomas, alfabetização informática, eventos de integração cultural e o comércio de produtos artesanais é permitido, como forma de incentivo econômico.

Cucina Pop/de pequenos produtores da região

A Cucina Pop trabalha com ingredientes super selecionados, provenientes de pequenos produtores da região milanesa. Além de possuir preços bem acessíveis ao público em geral, distribui alimentação gratuita ao imigrantes e pessoas em situação de risco social que frequentam o local.

Leoncavallo – um centro social autogerido

A crônica toda se passa nos vários ambientes deste Centro Social. Opondo-se à privatização de territórios e às noções neoliberais de cultura, o Leoncavallo (assim como outros centros sociais italianos) é uma associação sociocultural, um espaço autônomo, multicultural, com acesso ilimitado à população e visitantes, e sem controle formal (da polícia). Com princípios antifascistas, solidários, antirracistas, antiproibicionistas e antissemitistas, o Centro Social Leoncavallo promove a cultura em suas diversas expressões, a formação e a educação, a acolhida e integração de imigrantes, além da informação e do debate políticos. Como mencionado, o Centro possui dois bares (Foresteria e Baretto), cozinha self-service (Cucina Pop), salão de shows (Foresteria), livraria com acesso a Internet (LIB@LAB), área de interação social com jogos (Hemp Bar) e praça central. Dali ainda é transmitida a Rádio Onda d’Urto Milano.

Site oficial: http://www.leoncavallo.org/home/ 

Foresteria

Espaço para shows que oferece programação multicultural, do reggae à música eletrônica, de ritmos africanos ao rock clássico, da música experimental ao punk, com destaque para as iniciativas de música independente.

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