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ENTALADA EM PRAGA

Um caso quase real na rua mais estreita de Praga.

(Esta crônica é baseada em fatos reais)

Um grito ecoa dentro do restaurante.

– A mulher está entalada!

Alguns viram as cabeças procurando a vítima. Outros comentam com seus pares, amigos e familiares:

– Devia levantar os braços para desentalar, meu pai sempre dizia isso.

– O John Bonham morreu engasgado. Isso pode ser perigoso.

– Alguém podia bater nas costas dela.

Alheio à balbúrdia que se instalara no local, um cliente paga a conta. Mas ao tentar sair, depara-se com a mulher, entalada na rua de acesso ao restaurante.

Era uma turista alemã. Estava em Praga há dois dias. Viajara sem muitas expectativas, tendo escolhido a cidade mais pela proximidade que por qualquer outra coisa. Na verdade, imaginava até que Praga seria muito sombria e cheia de pessoas maleducadas, como já ouvira falar. Mas surpreendera-se. Estava completamente encantada com a Paris do Leste, a cidade das cem cúpulas. Ficou deslumbrada com o Relógio Astronômico, apaixonou-se pelo presunto e pela cerveja dos checos, enamorou-se do Rio Vltava e do castelo de Praga, mas o que mais a fascinou foi o espírito jovem e alegre da cidade, contrastando com a arquitetura que mescla diversos estilos históricos.

praça em Praga – Estante de Viagens

Pensava nisso enquanto passeava pela rua do Seminário, U Lužického, no momento em que foi atraída pelo cheiro de goulash vindo do restaurante Certovka. Não pensou duas vezes antes de entrar pela rua hiperestreira que dava acesso ao estabelecimento. Começou a descer as escadas e entalou. Não podia mais subir ou descer. Estava presa, imóvel. Desenbestou a blasfemar em alemão. Alguém do restaurante ouviu e gritou. A confusão estava criada.

Goulash com vegetais e knödel de batata – Eisenmenger – pixabay

A notícia certa logo se espalhou. Do restaurante, cabeças observavam da janela e da porta. Todos queriam ver. Abandonavam os pratos. Alguns fotografavam. Por sorte da turista alemã, não havia facebook ou whatsapp na época. Mas do outro lado da rua a multidão também já começava a se formar, rir, curtir e compartilhar entre si. A turista choramingava. Os funcionários do restaurante uniram-se para tirá-la dali. Primeiro, tentaram puxá-la. Depois, perceberam que seria melhor empurrá-la rua acima. A mulher ruborizava, praguejava em alemão. Os funcionários empurravam-na sem jeito, comprimindo sua barriga, tocando-lhe, sem querer, as partes íntimas. A multidão às suas costas, rindo e comentando.

– Isso que dá ser gorda.

É vingança divina contra esses alemães nazistas.

– Hoje nem precisa apertar o semáforo pra dizer que a rua está ocupada.

A rua é um dos pontos turísticos de Praga, criada no século XVI como um “corredor de fogo” para dar acesso ao rio, em casos de incêndio. Como possui apenas 50 cm de largura (é mesmo hiperestreita), tem semáforos instalados em ambas as extremidades, controlando o tráfego de pedestres, para que as pessoas não colidam uma com a outra na subida/descida. Mas não tinha nenhuma placa no estilo “Atenção, gordos e obesos. Risco de entalamento.”

museu Kafka em Praga – Estante de Viagens

A alemã tinha vindo da Cidade Velha (Staré Město) e atravessado o rio Vltava pela ponte Mánesuv para evitar a multidão. Mas olhava de lá as estátuas da Ponte Carlos. Chegou à Cidade Pequena (Malá Strana), passou pelo Museu Kafka e chegou à tal rua do Seminário suando. Praga no verão podia ser muito quente, ainda mais para quem tem uns quilos a mais. Precisava de um banho. Mas ao sentir o cheiro do goulash, esqueceu de tudo, não reparou na estreiteza da rua que teria de descer nem viu o semáforo, despencou-se rua abaixo.

Agora estava lá, entalada. Tinha pedido que não chamassem os bombeiros. Não queria ver suas fotos no jornal nesse estado. Mas já estava ficando desesperada. Aquela situação era insuportável. Até que alguém do restaurante teve uma ideia: sabão. Os funcionários muniram-se de baldes e buchas e começaram a ensaboar as paredes e a mulher. Ela começou a deslizar. Deu um passo para trás. Soltou-se. Todos gritaram.

Envergonhada e irritada, ela saiu dali rapidamente e foi procurar outro restaurante. A multidão foi se dispersando entre comentários e risadas. Em seus pensamentos, a alemã torcia para que toda aquela gente, hora ou outra, ficasse entalada com o próprio veneno.

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

rua hiperestreita de Praga – Estante de Viagens

 

John Bonham

Referência ao músico e compositor inglês, ex-guitarrista da banda Led Zeppelin.

a Paris do Leste, a cidade das cem cúpulas

Praga possui muitas alcunhas como essas, bastante justificáveis diante da beleza da capital checa, que possui uma mescla arquitetônica singular, em que se destacam as centenas de torres e cúpulas de suas diferentes construções.

Nota: a expressão Paris do Leste também tem sido usada recentemente em referência a cidade de Budapeste, na Hungria.

Relógio Astronômico

Denominado Orloj, o relógio astronômico medieval montado na parede da Prefeitura Municipal (Cidade Velha) é uma das joias da cidade. A estrutura possui um mostrador-calendário e um mostrador-astronômico, com representações zodiacais e da posição do Sol e da Lua no céu. E a cada troca de hora há um show mecânico das esculturas do relógio, a chamada Caminhada dos Apóstolos, que ocasiona a concentração de centenas de turistas em frente ao local, para assistir ao espetáculo.

o presunto e a cerveja checos

Com influências alemãs e austríaca, a culinária checa dá destaque para as carnes. Entre os pratos típicos, um dos mais famosos é o Presunto de Praga (Pragerschinken), que pode ser encontrado em barraquinhas pela rua, servido defumado em grandes nacos, ou, em versões mais requintadas, recheado com nata ou com pepinos, por exemplo.

Além disso, o país lidera o ranking de consumo de cerveja por pessoa (à frente da Alemanha e dos EUA). Como uma cidade de bons bebedores, Praga tem pubs por todos os cantos, muitos inclusive com fabricação própria de cerveja. O comum é beber em canecas de 500 ml e não tão gelada como no Brasil, mas há também canecas de 300 ml e, em geral, é possível escolher a gradação alcoólica da bebida (normalmente, entre 8% e 12%).

castelo de Praga

Ocupando uma área total de 72.5 mil m2, o Pražský hrad é considerado pelo Guiness Book como o maior antigo castelo do mundo. Localizado em uma alta colina, a fortificação, antigamente, dominava a região, permitindo controlar todas as embarcações que passavam pelo rio Vltava. Hoje, a vista panorâmica da cidade que se tem dali ainda é um dos pontos altos da visita. No interior do castelo também há alguns palácios e museus interessantes, além do belíssimo Jardim Real. E de hora em hora acontece a troca da guarda presidencial.

arquitetura que mescla diversos estilos históricos

Passear por Praga é assistir a um verdadeiro desfile de estilos arquitetônicos; é como viajar no tempo. Genuinamente localizada entre o Oriente e o Ocidente e com uma história milenar, a cidade vai do gótico ao renascentista, passando pelo barroco, em apenas alguns passos. Há palácios em estilos Art Nouveau e rococó, torres românticas, construções neoclássicas, igrejas e rotundas em estilo romanesco, blocos comerciais da era soviética e também edifícios pós-modernos. Não é a toa que a cidade é uma das maiores atrações da Europa Central.

goulash

Lê-se “gulache”; um prato de origem húngara, bastante típico nesse país e também na República Checa, na Áustria e na Alemanha. Trata-se de uma receita de carne de gado (às vezes misturada com carne de porco), preparada ensopada, com páprica e outros temperos picantes. Em Praga, o goulash costuma ser servido com pedaços de pão ou com bolinhos de batata.

restaurante Certovka

Instalado em uma área de edifícios dos séculos XV e XVI, o restaurante Certovka possui terraços sobre o rio Vltava, com uma impressionante vista da Ponte Carlos. O acesso ao estabelecimento é feito exatamente descendo as escadas da rua mais estreita de Praga (cenário dessa crônica) cuja entrada é feita pela rua U Lužického semináře n° 24.

Esclarecimento: este não é um post patrocinado. A ideia não é vender o local, senão narrar fatos reais (trata-se de uma crônica) com informações exatas. 

não havia facebook ou whatsapp na época

*Como mencionado, a crônica é baseada em fatos reais. De acordo com o jornal checo MF DNES, em inglês:

“One time, one really corpulent German tourist got stuck” remembers the owner of Certovka Restaurant. “She couldn’t go up or down. The personnel tried to push her back to the street , but in vain. In the end we had to soap her, so she would slide more easily. She just had to go somewhere else for her lunch.” 

É vingança divina contra esses alemães nazistas

Tanto essa menção de dialógo checo, quanto o pensamento anterior da turista alemã “imaginava até que Praga seria muito sombria e cheia de pessoas maleducadas, como já ouvira falar”, fazem referência a ligeira rixa que ainda resiste entre os dois povos após a Segunda Guerra Mundial.

Ponte Carlos

Entre as várias pontes que atravessam o rio Vltava, essa é a mais famosa, principal conexão entre a Cidade Velha (Staré Město) e a Cidade Pequena (Malá Strana). Construída no ano de 1357, pelo arquiteto Petr Parléř, durante o reinado de Carlos IV, a ponte de 520 m é ornamentada por uma série de estátuas de santos católicos, alinhadas de ambos os lados, contando parte da história religiosa checa. Normalmente, uma multidão de turistas, artistas de rua e vendedores ambulantes animam o local, que se torna ainda mais bonito com a iluminação do entardecer.

Museu Kafka

Por quase toda a cidade é possível encontrar as pegadas de Kafka, o mais famoso literato checo. No museu dedicado ao autor de “A Metamorfose” e “O Processo”, há uma grande coleção de diários e as primeiras edições originais de obras famosas do escritor. Na loja anexa ao complexo, é possível encontrar seus livros em várias línguas, além de pôsteres, camisetas e outros souvenirs.

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