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ENCONTRO EM BUENOS AIRES

Há dias não o via nem ouvia o som da sua voz. Estava em Buenos Aires. Esse era um dos motivos do distanciamento. Estava entretida com a cidade. Pra falar a verdade, parecia não sentir sua falta. Essa moça estava diferente. Alguns até podiam dizer que ela já não o conhecia mais. Mas será que era mesmo?

 

Vivia de biscate, mas não precisava de ninguém que a sustentasse. Tinha comprado a passagem à vista para conhecer a Europa latina. E estava há seis dias por lá, perguntando-se o que era, que era que vivia nas ideias desses amantes. Mas em seu próprio amante não chegara propriamente a pensar. Quizá por falta de tempo.

 

No primeiro dia, fez os passeios turísticos básicos pelo Centro. Foi do Obelisco à Casa Rosada, fez uma pausa no Café Tortoni, caminhou pela Calle Florida, entrou na Galerias Pacifico só para admirar os afrescos do teto, parou para admirar também a vista da Torre de los Ingleses e, depois, ainda continuou caminhando até a sede da livraria El Ateneo. Foi um dia tão intenso que ela não pensou nele em nenhum momento.

 

No segundo dia, liberada das obrigações turísticas, foi fazer um passeio mais descompromissado. Começou pelo Bairro Chino e pelas Barrancas de Belgrano. Depois, foi ao Jardim Japonês. E finalizou a tarde passeando pela feira de livros usados da Plaza Italia. Empolgada que estava com tantos exemplares de Gabriel García Marquez, Eduardo Galeano y José Fierro, nem chegou a reparar no nome dele entre os autores.

 

Feira de livros usados da Plaza Italia – Buenos Aires – Estante de Viagens

 

No terceiro dia, ela resolveu visitar os museus. Foi ao MNBA y al MALBA e, neste último, pôde relembrar muitos artistas brasileiros. Portinari, Di Cavalcante, isso sem falar no comovente Abaporu, de Tarsila do Amaral. Mas as lembranças da terra natal, ainda assim não a fizeram recordá-lo. Nem mesmo depois, perto do Rio de La Plata, vendo a Puente de La Mujer, tocou-lhe a sua alma feminina.

 

 

MALBA – Buenos Aires – Estante de Viagens

O quarto dia era sábado e ela decidiu ir à Recoleta. Visitou o cemitério e ficou surpresa com aquela espécie de cidade dos mortos, com ruas, casas e até mansões. Mas a vida estava logo ali fora, na feira, na praça em frente. E ela foi aproveitar. Encontrou amigos, comprou una pollera, comeu alfajores con dulce de leche casero, visitou o Hard Rock Café e foi encerrar o dia assistindo o espetáculo Fuerza Bruta no próprio Centro Cultural Recoleta. Uma experiência tão intensa de arte, cor, luz, som e movimento; tão distinta de tudo que ela já tinha visto… e mesmo assim, ela não chegou a lembrar das peças que ele fazia, de toda a transgressão que ele causou…

 

Domingo era o dia da Feira de San Telmo e ela aproveitou que ia para aqueles lados para conhecer o Caminito antes. Programas de turista, é verdade, mas esses ela não podia deixar passar. Teve certeza disso ao final do passeio, quando um bando de batuqueiros aproximou-se, precedido por dançarinas que intentavam imitar el samba.  E ela ficou ali vendo a banda passar, tocando coisas de amor. Mas em seu amor, não pensou.

 

Caminito – Buenos Aires – Estante de Viagens

 

O sexto dia era o último dela em Buenos Aires. Iria embora na manhã seguinte. Tinha aproveitado bem a cidade. Mas tratava-se de uma grande metrópole. Certamente tinha muito mais a mostrar e oferecer. Convidada por um amigo resolveu fazer algo completamente diferente (ao menos, para os padrões dela). Foram a um bar punk.

 

Quando chegaram, a banda já tinha acabado. As pesadas cortinas de veludo preto já tinham sido suspensas e, num canto, viam-se todos os instrumentos amontoados, próximos a vários objetos com tom vintage. As pessoas, todas vestidas de preto, com tachinhas prateadas nas roupas, jaquetas pesadas, meias arrastão, olhos bem marcados de preto, piercings, moicanos… Um dos moicanos veio e abraçou-a. Era amigo do amigo que estava com ela. Ela enrubesceu, sentiu-se um pouco intimidada. Olhou em volta, procurando algum socorro. Foi então, que seus olhos se cruzaram com os dele, aqueles olhos azuis. Logo naquele momento, ela o viu. Ele estava naquele canto, junto aos objetos vintage, apoiado na parede. Chico Buarque de Hollanda, seu grande amor. Quem ela menos esperava encontrar em Buenos Aires, estava ali, numa capa de 1978. Ele era mesmo onipresente.

 

Bar punk em Buenos Aires – Estante de Viagens

 

 

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

passeios turísticos básicos pelo Centro

Obelisco/Café Tortoni/Casa Rosada/Calle Florida/Galerias Pacifico/Torre de los Ingleses

Se você tem um pouco de preparo físico ou muita disposição, pode ir caminhando conhecer todas essas atrações. Do Obelisco ao Café Tortoni são 750 m (11 min.). Do Café à Casa Rosada, mais 850 m (+9 min.). Da Casa Rosada, indo pela Calle Florida até as Galerias Pacifico, mais 1,5 km (+19 min.). Por fim, das Galerias até a Plaza San Martin (com vista para a Torre de los Ingleses), são apenas mais 800 m (+11 min.). O percurso todo tem 3,8 km e pode ser feito, em média, em 50 minutos, sem contar as paradas. Na minha opinião, um jeito mais visceral de conhecer a cidade.

Mapa da caminhada: http://bit.ly/1HaZTHM 

sede da livraria El Ateneo

A segunda livraria mais linda do mundo (eleita pelo The Guardian) é um dos pontos turísticos mais conhecidos e visitados da capital portenha. Mas é importante esclarecer que há várias filiais da El Ateneo pela cidade. A que se encontra na Avenida Santa Fé, 1860 é a famosa matriz.

pelo Bairro Chino e pelas Barrancas de Belgrano

As duas atrações ficam quase uma ao lado da outra. O Bairro Chino, como o próprio nome diz, é uma localidade da capital ocupada por orientais, onde chamam a atenção as lojinhas de bugingangas souvenirs e a gastronomia. As Barrancas de Belgrano são uma grande área verde e arborizada; não exatamente um parque, mas um local onde as pessoas sentam-se para conversar, ler e tomar sol ou levam seus pet’s para passear.

feira de livros usados da Plaza Italia

De segunda a sábado. Na Plaza Italia, em PALERMO – entre a Avenida Sarmiento e a Avenida Santa Fe. Se a ti te gusta leer en español, ese es un lugar increíble para encontrar buena literatura, con libros en excelente estado y precios justos.

MNBA e MALBA

A cidade de Buenos Aires tem mais de 120 museus, sejam de história, de arte ou de cultura popular. O MNBA é o Museu Nacional de Bellas Artes (na fala porteña, “‘bexas’ artes”) e abriga uma vasta coleção, com exemplares de Degas, Goya, Kandinsky, Manet, Monet, Picasso, Rodin e Van Gogh, entre outros. Fica na Recoleta e a entrada é gratuita. Já o MALBA é o Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. Um prédio moderno e arejado, com uma exposição permanente de alto valor, incluindo os brasileiros Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Helio Oiticica, Cândido Portinari, entre outras preciosidades.

Contatos de todos os museus de BsAs:  Museus de Buenos Aires 

Recoleta: cemitério, Hard Rock Café e Centro Cultural Recoleta (Fuerza Bruta)

Um dos bairros urbanos mais bonitos do planeta e com localização bastante central, a Recoleta tem muitas praças e cafés, lojas e prédios de luxo. Além disso, há muitas atrações para o turista, como o famoso cemitério da Recoleta, o MNBA, a feirinha da Plaza Francia nos fins de semana e o Hard Rock Café. Ademais, o Centro Cultural do bairro oferece exposições de arte, workshops, apresentações de cinema e espetáculos exclusivos, como o Fuerza Bruta.

Caminito e Feira de San Telmo

O Caminito – um dos pontos turísticos mais coloridos e visitados da capital – é uma rua museu, com uma infinidade de cores, inúmeros artistas, dançarinos de tango, bonecos gigantes e uma incrível efervescência artística e popular. Fica próximo ao estádio do Boca Juniors, a alguns museus e a um teatro. Mas não é recomendável afastar-se muito da área turística sozinho nem levar objetos de valor ou visitar o bairro à noite.

Desde o bairro Boca – onde fica o Caminito – até a Feira de San Telmo uma corrida de táxi leva no máximo 10 minutos (ou seja, é baratinha – e segura). A Feira acontece todos os domingos (desde 1970) e, além de antiguidades e obras de arte, há milhares de outras coisinhas à venda, de latinhas vintage a cristais, de talheres a temperos, de sapatos a souvenirs. A visita é uma experiência quase antropológica, reunindo mais que milhares de turistas, artistas porteños, cultura local e muita diversão.

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