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ARRIBA, ARRIBA

Una aventura chiquitita en Mexico.

 

 

            – ¿Aceptas una bebida, chica?

 

Com seu portunhol desafinado, ela limitou-se a aceitar timidamente com a cabeça. Logo, lembrou-se de um amigo que lhe dissera para não aceitar bebidas estranhas quando estivesse no México. E aquela bebida verde fosforescente no barco para Cozumel era mesmo muito estranha, como uma tequila hiperadoçada. Mas ela estava sedenta por um trago, suava em bicas com o calor mexicano e, além do mais, estava na terra da tequila, não era mesmo?

 

 

Tequila Sour – Jon Sulivan – Wikimedia – public domain

 

Bebia com os olhos fixos no mar. As águas verde-esmeralda hipnotizantes. A bebida verde fosforescente. As plantações verdes de agave. Vegetação. Verde. Vida. Queria ver os peixinhos coloridos, tartarugas e estrelas marinhas. Mergulhar naquela imensidão verde como quem se embrenha numa floresta e cantar como uma criança “pelo mar afora, eu vou tão sozinha…”

 

            – Bienvenidos a Cozumel. – os devaneios de Joana foram interrompidos pelo comandante do barco.

 

A chegada à ilha foi um pouco conturbada. Haviam barcos de passageiros que faziam o transporte desde Playa Del Carmen (península de Yucatán) e também grandes ferrys. A multidão desembarcava ruidosamente e com algum tumulto. Mal estavam no cais e um punhado de chicanos já os abordava, oferecendo passeios, alugueis de carro e moto.

 

Joana dispensou os que se aproximavam dela e caminhou, observando os preços, para ter uma noção geral. Foi a um dos guichês de aluguel de carro ali mesmo no cais, pechinchou um pouco e teve que seguir o funcionário pelas ruas de Cozumel até onde realmente ficava a locadora. Estava perdida. Mas o funcionário foi gentil, deu-lhe um mapa da ilha e esforçou-se para lhe explicar onde ficavam as principais atrações. A primeira que chamou a atenção de Joana foi o Museu da Tequila. O funcionário insistia que ela não podia deixar de ir a Punta Sur – onde poderia mergulhar e havia diversas outras atrações – e até oferecia vales de um Parque parceiro. Ela queria mesmo ir à praia, mergulhar, mas uma passadinha no Museu da Tequila parecia uma ideia bem inofensiva, quiçá até uma pitada educativa.

 

E foi mesmo. Aprendeu que a tequila é feita da polpa do agave, uma planta da mesma família da nossa babosa.

polpas de agave no forno para fabricação de tequila – Stan Shebs – Wiki(CCBY3.0)

Aprendeu que uns 80% das plantações de agave do México estão no estado de Jalisco; e que elas são azuis, não verdes como pensara. Aprendeu que, tal como Cognac e o Vinho do Porto, a tequila tem uma região própria. E enquanto aprendia, Joana bebia as doses que lhe davam para degustar. Observava os antigos fornos. Cozinhava de calor. Via os moedores seculares, os facões com que cortavam as folhas, as lâminas… Sentiu um leve mal-estar. Virou o copo na boca e foi embora às pressas. Precisava ver o mar, mergulhar…

 

 

O carro forçosamente conversível – um compacto com o teto cortado a facão – a ajudou a respirar melhor. Foi dirigindo e cantarolando até Punta Sur. “Pela estrada afora, eu vou tão sozinha…” Aproveitou o vale que pegara na locadora de carros e conseguiu desconto no Punta Sur Eco Beach Park. Mas distraída que estava, não entendeu muito bem o que disse o funcionário da recepção. Enfim… foi seguindo e cantarolando até que viu um carro estacionado.

 

– Deve ser aqui – pensou alto, estacionou e nem se deu conta de que caminhava na direção oposta à da praia.

 

Avistou a água. Mas havia uma plataforma sobre ela, uma espécie de passarela de madeira. Estranhou, mas continuou seguindo. Em algum lugar, devia encontrar alguém que alugasse um snorkel para ela poder mergulhar. Continuou andando e olhando a água transparente. Viu algo. Um peixinho? Parou para admirá-lo mais de perto. Um pouco sem equilíbrio, sentou-se na passarela. E começou a conversar com o bichinho.

 

– Peixinho, por que esses olhos tão grandes? Tá, eu sei que eu sou linda, tudo bem. Mas e esse nariz, por que esse nariz tão grande? É, eu sou cheirosa também, eu sei. Agora, e essa boca, por que essa boca tão grande?

 

– Ei, cuidado, esse crocodilo pode te comer.

 

Hein? – Joana tomou um tremendo susto.

 

A outra brasileira tinha chegado do nada e surpreendera Joana bêbada, sentada na passarela, trocando a maior ideia com o peixinho hiperdesenvolvido.

 

 

na Lagoa dos Crocodilos, em Cozumel – Estante de Viagens

 

– Ei, que história é essa de crocodilo? Onde esconderam os peixinhos? Quem é você? E onde eu compro outra tequila?

 

A moça riu enquanto explicava a Joana que ali era a Lagoa dos Crocodilos – uma reserva natural separada do mar pela vegetação – e que elas só podiam acessar a praia alguns quilômetros mais a frente. Subiram ao mirante do local para Joana entender melhor. Riram, conversaram mais, foram ficando amigas e – como ambas viajavam sozinhas – resolveram seguir juntas até a praia. A outra só fez uma ressalva:

 

Pode deixar que eu guio. Aqui também não é aconselhável dirigir bêbado. Ah! Nem falar com crocodilos, viu?!

 

 

panorâmica do Punta Sur Eco Beach Park, com vista do mar e da lagoa – Estante de Viagens

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DICAS E COMENTÁRIOS DA ESTANTE:

 

não aceitar bebidas estranhas quando estivesse no México

Em muitos lugares do mundo é possível beber água da torneira. O México, contudo, já se converteu em um dos maiores consumidores de água engarrafada do planeta, devido à má qualidade da sua água. E ao tomar uma bebida “estranha”, você não sabe se o gelo foi feito com água da torneira… ou coisa pior. Poder aceitar até pode, mas assuma os riscos de uma dor de barriga.

Cozumel

Localizada no Caribe mexicano, Cozumel é a maior ilha habitada do país. Rodeada por águas cristalinas de cor turquesa, Cozumel é também um dos destinos de mergulho e snorkeling mais famosos do mundo (há corais de todo tipo, barracudas, moreias gigantes, garoupas, cavalos-marinhos, tubarões-lixa, arraias, caranguejos, lagostas e muito mais), além de ser possível também nadar com golfinhos e visitar um santuário de tartarugas por lá. Ademais, só 6% da ilha conta com desenvolvimento urbano, logo, seu interior é coberto em grande parte por vegetação, criando prazerosas trilhas e locais de isolamento e tranquilidade.

transporte desde Playa Del Carmen

Além dos grandes ferrys (onde carros alugados não são permitidos), também é possível chegar a Cozumel em barcos rápidos de passageiros que saem do píer de Playa Del Carmen a cada 30 minutos ou uma hora. E a ilha de Cozumel ainda conta com um aeroporto internacional.

Museu da Tequila

Réplica de uma verdadeira Hacienda Antigua (como as que produzem a tequila de origem, em Jalisco), o Museu da Tequila de Cozumel oferece um tour guiado para visitantes conhecerem mais sobre a tradicional bebida mexicana, com direito a um drink de boas-vindas e doses de degustação. Aberto diariamente.

Em Cozumel, na Carretera Transversal Km. 9.8.

a tequila tem uma região própria

Desde 1973, “tequila” é uma denominação de origem controlada do México, mais especificamente do estado de Jalisco, em regiões limitadas. Isso significa que a bebida destilada de agave azul é originária destes locais e que suas características essenciais devem-se ao meio geográfico onde é produzida, incluindo fatores naturais e humanos. Além disso, em espanhol, o nome “tequila” é masculino, trata-se como o tequila. Vamos tomar um?

Punta Sur Eco Beach Park

Este não é um post patrocinado. A ideia aqui não é vender o local, senão narrar uma experiência pessoal, com personagens fictícios, mas com informações reais.

Dito isso, o Punta Sur Eco Beach Park é a maior reserva ecológica da ilha de Cozumel, onde o visitante pode:

– acessar a hipnotizante praia caribenha para banhos e mergulhos;
– observar crocodilos em seu habitat natural;
– fotografar pássaros exóticos;
– fazer um passeio de barco pela Lagoa;
– e subir o farol para apreciar a vista panorâmica de todo o local.

Leia mais sobre a Riviera Maya

Leia uma história cheia de sensações sobre Playa del Carmen, um dos pontos de embarque para a ilha de Cozumel:

MÉXICO, PRAIA, PIMENTA E REFRI

 

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